Wilson Valentim Biasotto *
12.06.98
Organizando a nossa papelada, planejando um novo trabalho, deparamo-nos com uma pasta contendo entrevistas sobre o movimento reivindicatório do magistério público estadual de Mato Grosso do sul. Realizadas entre 85 e 86, as entrevistas dividem praticamente em dez anos os dias atuais do período em que se deu o início da movimentação do professorado [76 a 78], para a organização da categoria.
Ao lermos uma das entrevistas encontramos a data exata da Assembléia de fundação do SIMTED, naquela época com o nome de Associação dos Professores de Dourados [ADP]: 7 de maio de 1978. O SIMTED está completando, portanto, vinte anos.
Atravessamos a data em branco, o que lamentamos, pois foi como se tivéssemos nos esquecido do aniversário de um familiar ou de um amigo querido. De qualquer forma, como o ano ainda está em curso, há tempo para uma singela homenagem a todos os que contribuíram para a construção dessa entidade.
Lembramo-nos perfeitamente das palavras do professor José Pereira Lins naquele longínquo 7 de maio. “Já vi nascer várias associações de professores e espero que essa se mantenha firme na defesa dos direitos da classe”.
Chamado a colaborar para que a ADP se firmasse como entidade representativa da categoria do magistério, o professor Lins cedeu uma sala do Colégio Osvaldo Cruz, onde durante um ano ou mais, funcionou a sede da Associação.
Outro discurso que nos tocou foi o do professor Sultan Rasslan. Na verdade ele contou uma história que lera num livro, mas com tanto sentimento que emocionou aos que se faziam presentes:
O inverno era rigoroso e os pais, quando deram conta não acharam a filha, uma pequena maravilhosa, a única que tinham. Procuraram, entraram no trigal, andaram. Chamaram os vizinhos e todos acorreram. A casa era o ponto de encontro, as pessoas saiam, andavam pelo trigal e retornavam em busca de notícias. Nada! Ninguém achava a pequena.
Veio a noite e com ela mais intenso o frio. As pessoas iam e voltavam em vão. O desespero já tomava conta do jovem casal, quando alguém deu a idéia: porque não nos damos as mãos e saímos juntos, varrendo o trigal daqui pra lá de lá pra cá. Quem sabe assim encontraremos a menina.
As pessoas deram-se as mãos. Saíram juntas... varrendo o trigal. De repente trombaram com a menina, já morta, enrijecida pela frio.
Alguém chorou e lamentou-se por não terem se dado as mãos antes.
Em 7 de maio de 1978, há vinte anos, os professores de Dourados deram-se as mãos. A criança, chamada educação ainda não tinha morrido...
O autor é doutor em História Social
pela USP e diretor do CEUD/UFMS