Wilson Valentim Biasotto *
Logo após o jantar, minha mulher, com a voz embargada anunciou-me que a diretora mandara chamar-nos. Abaixei a cabeça sem nada responder. Tinha certeza de que algo de ruim estava por acontecer. Nossa filha, com certeza, não mais seria aceita naquela escola. Era previsível, nós aguardávamos por isso. Mas não pense o leitor que nossa moça tenha feito algo de errado para merecer uma expulsão. Se acompanhar essa minha história saberá o que ocorreu.
No dia seguinte encontramo-nos com a diretora. Aperto de mãos, abraços, cumprimentos; manifestação de sentimentos de pessoas amigas que há longos anos se conhecem. Na seqüência as palavras que temíamos ouvir: “vossa filha é a única matriculada, é lamentável, espero que vocês compreendam que é impossível levar um curso com um único aluno”.
Claro que entendemos. Estávamos esperando por isso, nossa filha já nos havia prevenido de que suas colegas dificilmente continuariam o curso. Providenciaríamos a transferência tão logo decidíssemos para onde. A decisão, entretanto, não foi difícil, apenas duas escolas em Dourados continuam oferecendo o curso de formação para professores: Wilmar e Menodora. Escolhemos a última não só pelos amigos que lá temos como também porque fica mais próxima de nossa casa.
Não amaldiçoamos a sorte, nem a escola e muito menos a diretora. Ao contrário, saímos apresentando os nossos agradecimentos pelo seu esforço e dedicação nos anos anteriores. Na verdade, Tia Ezir, como é carinhosamente chamada, não é dessas empresárias que somente enxerga cifrões, é uma educadora na mais verdadeira acepção da palavra. Mas que fazer? Ano passado ela tocara o curso com oito alunos, nesse ano colocá-lo-ia novamente em funcionamento com quatro ou cinco, mas com um único aluno, definitivamente, convenhamos, não dava.
O fechamento do curso não se deu por incompetência, ou por quaisquer outros fatores. Simplesmente não tinha demanda. Pouquíssimos são os que pretendem ser professores de I Grau. Muitos que gostariam são desencorajados pelos pais, irmãos, tios, vizinhos e, muitas vezes, pelos próprios professores.
Talvez não precisemos mais de professores. Talvez o neoliberalismo, que vem sendo implantado em nosso país a todo custo, seja a panacéia para todos os males. Mas, eu, particularmente, tenho comigo que há algo de errado nisso tudo. Penso que um curso para formação de professores que se fecha é assim como uma luz que se apaga.
*O autor é doutor em História Social pela
USP e diretor do CEUD/UFMS