Wilson Valentim Biasotto *
20-jul-97
Parece-me que foi ontem. Toninho Sobrinho e eu fomos vencidos pelo sono. Passáramos várias noites estudando até duas, três horas da manhã para o vestibular e naquela oportunidade sucumbimos. Faltavam apenas dez para as sete quando acordamos e demos conta de que havíamos dormido debruçados na mesa onde estudávamos. Saí em louca disparada para vencer, em dez minutos, a longa distância que me separava de meu trabalho. Tempos duros! Mas valeu. Conseguimos a nossa aprovação.
Essa foi uma das histórias que contei dia 19 pp., na Escola Antonia da Silveira Capilé, por ocasião da aula inaugural de um cursinho preparatório para o vestibular que o CEUD/UFMS está promovendo em caráter experimental naquela escola do Estado. Através desse capítulo de história de vida quis demonstrar, aos cerca de oitenta alunos matriculados que mesmo quando não se tem recursos para freqüentar um cursinho particular pode-se ingressar em um curso de nível superior.
Claro que as pessoas impossibilitadas de freqüentar cursinhos precisam de esforço redobrado, precisam ter determinação, força de vontade superior aos obstáculos que se lhes apresentam. Nada é impossível todavia. O que não podemos é nós manter inertes diante de um quadro onde a esmagadora maioria dos estudantes que concluem o segundo grau desistem de seus estudos.
Por isso estão de parabéns, tanto o grupo de alunos dos vários cursos do CEUD/UFMS como os professores que se propuseram a dedicar os seus sábados para ministrarem esse cursinho preparatório para o vestibular sem terem nenhuma retribuição financeira em troca. Por apostar nessa parceria, prestigiar e colaborar com esse empreendimento, está de parabéns também a direção da Escola Capilé.
Salvo engano, o cursinho iniciado é inédito no Brasil e, se esse projeto piloto vingar, no ano que vem estaremos ampliando a iniciativa para outras escolas públicas interessadas e, com certeza, outras instituições de ensino superior seguirão esse exemplo.
Esses professores, saindo da redoma da universidade, esses acadêmicos da escola pública retribuindo solidária e espontaneamente os benefícios que receberam mesmo antes de terem concluído o curso, esses alunos de segundo grau que, mesmo diante de tanta incerteza, anseiam pelo saber, estão a construir uma obra que nos faz manter as esperanças de construção de uma sociedade solidária.
*O autor é doutor em História Social pela
USP e diretor do CEUD/UFMS