Wilson Valentim Biasotto *
9-jan-97
A represa do Ribeirão dos Porcos, construída para possibilitar geração de energia elétrica para o município de Borborema no Estado de São Paulo, era enorme para mim, ao menos enquanto foi a única que conhecia. Com o passar do tempo a represa não me parecia mais tão grande. Não sei se porque fui crescendo, se porque foram construídas represas gigantescas pelo Brasil inteiro ou ambas as coisas. De qualquer forma não era uma represa desprezível e até hoje sustenta com sua água uma pequena hidrelétrica.
Aliás, foi com a construção de pequenas hidrelétricas, da natureza dessa do Ribeirão, que o Brasil foi adquirindo tecnologia para arrojar-se em obras maiores, que o coloca, atualmente, entre os países de maior know how nessa área. Estou para apostar que é o primeiro do mundo em técnica de produção hidrelétrica, mas se não o for, com certeza, é um dos mais entendidos.
Mas nem só de energia elétrica vive o homem. Às margens da represa do Ribeirão, quando menino ainda, participei de um pic-nic (convescote se quiserem os puristas do vernáculo). Moços e moças espaireciam naquele local agradável. Uns pescavam, outros nadavam, enfim, todos se ocupavam de algum entretenimento antes que fosse estendida a toalha e servido o tradicional lanche preparado para essas ocasiões.
Ao longe dois moleques passeavam com um barco. Eu já os vira antes perambulando pelas ruas da cidade de Itápolis, uma cidade vizinha dali. Nós os chamávamos de moleques de rua. Não havia como me enganar, naquela época os moleques maltrapilhos eram raros. Quando havia meninos abandonados o lar das crianças ainda dava conta de abrigá-los.
Não sei como chegaram à represa se a cidade distava dali mais de quinze quilômetros. Também não me perguntem como arrumaram aquele barco, nem como entraram naquela área. Sei que enquanto um remava o outro tirava água do barco com uma latinha. De repente a embarcação virou. Um dos moleques agarrou-se ao barco e conseguiu, com muito custo, manter-se nele até que chegasse socorro, o outro começou a ser arrastado pela forte corrente provocada pela sução da comporta principal da represa que se encontra semi-aberta.
Todos vimos a cena, mas foi meu tio que em ato contínuo ao afundamento do barco lançou-se à água sem vacilar. Com fortes braçadas conseguiu agarrar o moleque e segurá-lo à salvo até que um barco se aproximasse para o resgate. Foram momentos de grande suspense para todos nós, mas o barco chegou e o moleque foi salvo. Perdera apenas o fôlego e a calça, única peça de roupa que usava e que correnteza sugara-lhe.
Poucos são os que tem coragem de arriscar a sua própria vida para salvar a de outro, especialmente se for a de um “moleque de rua”. Poucos também são os que têm a coragem de entregar as nossas hidrelétricas à voracidade do capital estrangeiro, privatizando-as. Contudo, existem pessoas dos dois tipos. Aos primeiros, como o tio Jaime, meus cumprimentos, aos últimos a minha repulsa.
O autor é doutor em História Social pela
USP e professor do CEUD/UFMS