Wilson Valentim Biasotto *
Voltava da Universidade, campus próximo ao aeroporto. Fim de tarde, movimento intenso, como de costume, nessa rodovia que liga Dourados a Itahum. Apenas dois carros à minha frente, cada qual a uma distância de aproximadamente cinqüenta metros. Todos os três veículos estavam em velocidade reduzida, como manda o bom senso quando se trafega por uma rodovia esburacada, sem acostamento e com movimentação intensa de bicicletas, carroças e pedestres.
Reduzi ainda mais a velocidade quando avistei um índio, de estatura mediana, avançando contra o primeiro carro que seguia a minha frente. Segurando uma ponta da camisa, enrolada numa das mãos, desferia golpes no primeiro veículo. Ziguezagueando, voltou para o lado oposto da estrada e arremeteu-se novamente contra o segundo carro.
O homem estava embriagado. Fiquei apreensivo, o próximo a passar seria eu. Fechei o vidro. Devagar e atento segui em frente. Por sorte, ao desferir o último golpe de camisa contra o carro que estava à minha frente, o índio entortou para o seu lado direito e atravessou novamente a pista ziguezagueando. Felizmente, quando cruzei com ele, estava do outro lado. Mesmo assim acelerei para evitar uma nova arremetida.
Ter passado ileso não me confortou. Salvar a minha própria pele ou o meu veículo não é tudo na vida. Lembrei-me de uma vez que meu filho, ainda pequeno chegou dizendo que lhe haviam tomado o boné mas não reagira porque segundo eu lhe havia dito era melhor perder um boné ou um tênis que perder a vida. Naquela oportunidade creio que fui feliz em responder-lhe que realmente fizera bem mas era preciso cuidado para não cair num outro extremo e transformar-se em um covarde.
Que fazer? Enquanto mil coisas se passavam pela minha cabeça, pareceu-me ter ouvido gente gritando: “Quer morrer? Bêbado! Vai trabalhar vagabundo! Coitado!
Não sei se o índio bêbado que encontrei ziguezagueando pela estrada ainda vive. Conforta-me um pouco a idéia de que pago impostos, cumpro as leis e tenho governos. Segui o meu caminho sinalizando para que os carros que cruzavam comigo fossem devagar.
Além disso reli a entrevista concedida por Antônio Callado, quando completava oitenta anos, no último domingo, 26 de janeiro, à Folha. Queria comprovar se o consagrado romancista de “Guarup” havia afirmado realmente que não tinha mais esperanças quanto aos índios. Era verdade, lá está com todas as letras a sua declaração de que “é lamentável, mas não há o que fazer com os índios. Passou o tempo”.
Callado morreu dois dias após a sua entrevista ter sido publicada. Desejo que tenha cometido ao menos um erro em sua vida: dizer que passou o tempo para aqueles que não tem mais o seu tekohá.
*O autor é doutor em História Social pela