Wilson Valentim Biasotto *
5-jun-97
Ainda bem que coisas como estas que lhes vou contar somente ocorrem com os outros e em países distantes. De qualquer forma nunca é demais sabermos o que se passa alhures, nem que seja para tomarmos precauções em nossas viagens, ou para conhecermos soluções que podem nos ser estranhas.
Num terreno baldio, na noite bem iluminada pela luz do luar, um ser, com aparência humana, espreitava as três moças que voltavam para casa depois de uma festa na casa de uma amiga comum. Quando estavam bem próximas, de um salto, ele pôs-se a frente das garotas e, com uma arma em punho, ordenou que entrassem para o matagal. Revólver na esquerda, dispunha da mão direita para empurrá-las e dos dois pés para chutar-lhes, de modo que não lhes restasse outra alternativa senão obedecer.
Uma das moças escapuliu desesperada não se sabe para onde, as outras duas, passado o susto inicial, puseram-se a lutar com aquele ser que tinha todas as aparências de humano. Conseguiram tirar-lhe o revólver, mas a força de ambas era insuficiente para resistir.
Talvez, quem sabe, se as três tivessem permanecido juntas! Se, ora se. Aquele ser agarrou firmemente uma das moças sem se importar com os golpes já fracos que recebia da outra. Esta, desesperada e impotente diante da cena, pôs-se a correr atrás de socorro. Machucada pelos golpes recebidos, ofegante graças a corrida desenfreada, desnorteada com o inusitado, voltou o mais rápido que pode com o pai, os vizinhos, enfim com várias pessoas dispostas a ajudar.
Tarde demais para a moça! Mas aquele ser com aspecto humano foi pego e entregue à polícia. Em vão sua mulher e suas filhas esperaram-no naquela noite fria. Foi nelas, aliás, que pensou durante todo o tempo em que esteve com a calça arreada, à mercê de seres também com aparência humana, que apinhavam a cela da cadeia. Jamais lhe passara pela cabeça que numa cela tão pequena coubessem tantos homens.
A sociedade local, quando tomou conhecimento desses fatos, indignou-se, discutiu o assunto, mobilizou-se. Como solução construiu escolas onde além de se aprender o vernáculo e as quatro operações, ensinava-se também e, principalmente, lições de cidadania. Construiu hospitais para tratar os seus enfermos físicos e mentais. Construiu cadeias dignas para receber todos os seus semelhantes incapazes de ajustarem-se às regras sociais. Enfim, reciclou a sua polícia e dotou-a de instrumentos ágeis para que ela nunca mais chegasse atrasada nos locais onde porventura uma moça qualquer estivesse perdendo o amor pela própria vida.
*O autor é doutor em História Social pela
USP e diretor do CEUD/UFMS