Wilson Valentim Biasotto *
Não sei porque fui ligar o rádio do carro por volta das 8:00 horas do dia 23 de janeiro. Não foi, com certeza, somente para me aborrecer e indignar. O ato de girar um simples botão permitiu-me refletir sobre uma questão deveras preocupante na atual conjuntura brasileira: o preconceito e a tendência reacionária de algumas pessoas em relação aos despossuídos de terra.
O locutor anunciou que José Rainha, líder do MST no Pontal do Paranapanema foi citado por um juiz de direito para comparecer ao fórum e prestar esclarecimentos sobre uma invasão, pelos sem-terra, de um prédio do INCRA. Ato seguinte o radialista, com voz limpa, entonação perfeita e uma ênfase de impressionar arrematou dizendo que “Rainha deveria trabalhar, pegar na enxada, ao invés de ficar invadindo prédios”.
Notícia seguinte: “José Rainha será julgado por júri popular por suspeita de assassinato. O juiz afirmou que o líder dos sem-terra poderá pegar de 20 a trinta anos de prisão caso seja comprovada a autoria do crime”. Comentário do locutor que parecia radiante com tal perspectiva: “Tem que pegar mesmo 30 anos, 40 anos de cadeia”.
Esse radialista não é o único no Brasil que se presta a reproduzir, com esse tipo de comentário, a ideologia da elite dominante. Rainha serviu-lhe desta feita de pretexto para defender os interesses dos grandes latifundiários. Já houve época em que outros radialistas, como esse a que me refiro, usassem um operário como pretexto. Lula, dentre todos os grandes líderes operários, nos últimos anos, foi o mais visado. Muitos locutores não se cansavam de insinuar que o líder sindical, principalmente depois de se tornar presidenciável, era um vagabundo, que nunca trabalhara e por aí afora.
Sem ter procuração para defender José Rainha ou o MST, mas preocupado com a situação social de nosso país, devo dizer que ele só é líder dos sem-terra por uma razão óbvia: existem sem-terra. E convenhamos, é muito mais vergonhoso e criminoso termos sem-terra num país como o Brasil do que termos um líder dos sem-terra.
E digo mais: se o atual governo brasileiro quiser realmente entrar para o Primeiro Mundo (como também desejava Collor) ele tem que realizar aquilo que o Primeiro Mundo realizou há muito tempo: a Reforma Agrária. O resto não passa de radicalizações retrógradas que somente servem para acirrar os ânimos e levar à conflitos sociais ainda mais violentos do que já assistimos em nossos dias.
*O autor é doutor em História Social pela
USP e professor do CEUD/UFMS