Wilson Valentim Biasotto *
8-ago-97
Mais de vinte anos de ausência e de repente estávamos ali, frente a frente, a conversar, falando de nossos respectivos casamentos, de nossos filhos, dos amigos comuns. Enquanto ameaçava tirar os óculos da bolsa para ler o cardápio, pedi licença e retirei-me só reaparecendo quando já os guardava. Mera coincidência, com certeza, mas não pude evitar uma reflexão: teria passado, porventura, pela sua cabeça que eu me levantara, cavalheirescamente, para não constrangê-la, vendo-a usar um símbolo fatídico do envelhecimento? Por outro lado, não poderia pensar também que eu me ausentara para que ela não percebesse, usando os seus óculos, as rugas de meu rosto?
Amigos não deveriam separar-se; o envelhecer junto é imperceptível. Por outro lado, na ausência, por mais que o tempo passe, não conseguimos imaginar a sua ação corrosiva no semblante do amigo. Por isso os amigos que deixamos em nossa juventude permanecem para sempre jovens.
Mas havendo um reencontro, sem decepção, quando a alegria de vermos o amigo(a) querido(a) não nos deixa tempo para observarmos se as marcas dos anos lhes foram inclementes, bate uma saudade gostosa dos velhos tempos! Não que me fossem melhores, não os desejaria de volta. Cada fase da vida tem os seus encantos, mas convenhamos, se não reencontrássemos os amigos que deixamos, eles não envelheceriam jamais.
Mesmo quando a saudade que sentimos é gostosa, ela tem o seu preço; o preço da saudade é envelhecer: quanto mais velhos ficamos, mais comprida é a estrada da saudade que trilhamos.
Não gostaria de reencontrar a Lu se ela tiver perdido a sua meiguice, o Tim, o seu entusiasmo, a Clara, a sua candura, o Álvaro, o seu mau-humor, e o Germano, o Rui, a Neusa, a Merce...
Não! A mangueira velha onde tantas vezes subimos quando meninos, não foi cortada, não morreu, não cedeu lugar a nenhum edifício, apenas nos esquecemos de sua exata localização. Ela continua viva com seus frutos, uns verdes para comermos com sal, outros maduros para chuparmos sem qualquer etiqueta, deixando o sumo amarelo escorrer pelos cantos de nossas bocas.
As estrelas que brilhavam nos tempos de nossa juventude continuam a piscar, embora devamos seguir enterrando com pesar os nossos mortos e embalando com ternura os nossos netos.
*O autor é doutor em História Social pela
USP e diretor do CEUD/UFMS