Wilson Valentim Biasotto *
6-jul-97
Ao ser apresentado a uma jovem senhora não sei quem ficou mais surpreendido: ela, que fazia de mim a imagem de um senhor carrancudo e deparou-se com uma pessoa alegre ou se eu, que não tinha idéia de que algum leitor pudesse manifestar esse tipo de perplexidade ao conhecer-me e mesmo que houvesse alguém imaginando a minha índole com base em meus escritos.
Minha nova amiga, na verdade, segundo me contou, fazia a imagem de que todos os militantes de esquerda fossem pessoas de cara fechada, chatas, mal humoradas, enfim, pessoas de difícil trato. Influencia do pai, talvez, a quem inclusive relataria a sua surpresa em conhecer um esquerdista que fugia aos padrões que estabelecera.
Achar que a esquerda brasileira é carrancuda não é um juízo particular de minha amiga, é uma tendência muito ampla em nossa sociedade. Por quê?
Creio que seja pelo fato da esquerda ser quase sempre do contra. E isso não deixa de ter um fundo de verdade. Afinal, se a esquerda acredita numa sociedade socialista, é natural que se manifeste contrária aos projetos dos detentores do poder. Isso desgasta, amargura. A cada dia é um golpe que fere, que gera desesperança.
Lembro-me da entrevista de Antonio Callado à folha, pouco antes de sua morte. Apresentou-se triste. Não tinha mais razão para viver, cansara. O seu projeto político jamais fora realizado. Seu próprio êxito pessoal não lhe tinha muito sentido. Uma pessoa que pensa o coletivo não se realiza plenamente sozinha.
Callado, mesmo sendo um vencedor, pois tem posição garantida no time principal da intelectualidade brasileira, viveu o paradoxo de ser sempre derrotado ao longo de seus oitenta anos. Derrotado pela ditadura Vargas, pela doutrina de segurança nacional do regime militar, derrotado enfim, numa visão mais ampla, pelas estruturas capitalistas que impõe a exclusão de amplos setores da sociedade.
As pessoas não são carrancudas por serem de esquerda. Alegria e tristeza, assim como outros sentimentos, são da própria natureza humana. As pessoas ficam carrancudas por não realizarem os seus projetos de vida. Nesse sentido pode ser que a esquerda reuna realmente mais gente carrancuda. Talvez fosse melhor dizer pessoas amargas.
Você não ficaria carrancuda, minha amiga, se já velha, ao final da vida, olhasse para trás e constatasse que o seu combate (la vie cest’un combat) foi totalmente infrutífero?
Mas não nos culpemos, não foi, afinal, somente para Drumont que um anjo torto apareceu e disse-lhe para ser gauche na vida.
*O autor é doutor em História Social pela
USP e diretor do CEUD/UFMS