Wilson Valentim Biasotto *
Âncoras de todos os grandes telejornais brasileiros mal conseguiram disfarçar a satisfação de noticiarem eventual corrupção em prefeituras administradas pelo Partido dos Trabalhadores. Boris Casoy, do SBT, que disputa acirradamente com Alexandre Garcia, Arnaldo Jabor e dezenas de outros comentaristas, a vaga de melhor panegirista do governo FHC, se não chegou, esteve próximo a um orgasmo jornalístico ao declarar que o PT era “um partido igualzinho aos outros”.
Todo o barulho é porque o ex secretário de finanças do PT de São José dos Campos, Paulo de Tarso Venceslau, denunciou que a firma Cpem estaria beneficiando o partido, como contrapartida a contratos de prestação de serviços que fez para melhorar a arrecação de impostos em prefeituras administradas pelo Partido dos Trabalhadores. A denúncia foi feita em 93 e arquivada porque Gilberto Carvalho, na época Secretário Geral do PT, não encontrou provas que sustentassem a denúncia.
José Dirceu, presidente nacional do PT, reconheceu que isso foi um erro. Deveria ter sido feita uma investigação profunda na época para evitar-se arranhões na credibilidade do partido. O PT esqueceu-se da máxima, já aplicada pelos romanos, de que à mulher de César não basta ser honesta, é preciso que demonstre ser honesta.
Agora, quatro anos depois das primeiras denúncias, o assunto volta à tona com tanto furor que poderá ser capaz abafar o escândalo da compra de votos de deputados para a aprovação da emenda da reeleição. Estrategicamente, portanto, seria relativamente fácil para o PT rebater essas denúncias. De fato não se pode descartar essa hipótese. Não se deve permitir que uma denúncia contra o PT preste-se para impedir a CPI da reeleição. Nada, aliás, poderá servir de pretexto para evitar que se apurem as graves denúncias de compra de votos de deputados.
Outrossim, o PT não pode, e não deve, rebater as acusações alegando, única e exclusivamente, que elas se constituem em uma saída oportunista do governo. Tem obrigação moral de não colocar quaisquer obstáculos a uma investigação profunda do caso que envolve a Cpem e as prefeituras petistas de Santos, Piracicaba e São José dos Campos.
As primeiras medidas tomadas pelos dirigentes petistas indicam que não haverá pizzas. Telma de Souza, José Machado, Angela Guadagnin, prefeitos àquela época, Aloisio Mercadante, Francisco Rocha da Silva, Paulo Frateschi e José Dirceu que conheciam as denúnicas em 93 estão na Internet (http://www.pt.org.br) com esclarecimentos detalhados sobre o assunto e mais, dispostos a irem até o fim nessa investigação. Lula, numa iniciativa que deveria ser seguida por Sérgio Mota, afastou-se do Diretório Nacional do Partido, para não inibir as investigações.
Até hoje o PT tem se colocado acima de qualquer suspeita no que tange a honestidade, e os seus próprios adversários são unânimes em reconhecer essa virtude do partido. Por conseqüência, é necessário, mais do que nunca, confirmar essa noção, para o bem não só dos petistas, mas de todos os brasileiros que resistem em ser honestos neste país onde um escândalo se sobrepõe a outro, banalizando princípios éticos e morais cultivados ao longo de séculos por nossos antepassados.
*O autor é doutor em História Social pela
USP e diretor do CEUD/UFMS