Wilson Valentim Biasotto *
Correntistas do Bamerindus brindai! Vocês, que iniciaram o feriadão prolongado da Semana Santa como depositantes de um banco à beira da falência, são agora correntistas de um dos maiores bancos do mundo: o Hong Kong & Shangai Bank. Não é incrível? E isso como que num passe de mágica! Nunca pensei que essas coisas fossem tão simples. Só mesmo no Brasil! País verdadeiramente abençoado pelos deuses. Ainda bem que ninguém se admira. Estamos acostumados com milagres, afinal, onde se abate a inflação com uma simples mudança do nome da moeda, porque não se pode revitalizar bancos usando o mesmo processo?
Pouco importa se o Banco Central vai injetar US$ 2,5 bi como adiantamento de uma conta que será paga (?) pelo Proer e que a parte podre do Bamerindus ficará com a Caixa Econômica e o Banco do Brasil. À Caixa caberá a Carteira Habitacional, pela bagatela de US$ 2,5 bi, ao Banco do Brasil a Carteira Agrícola, em torno de US$ 400 mi. Mais um buraquinho aqui, um ajuste ali, um remendo acolá e estaremos próximos de mais um rombo em torno de US$ 6 bi.
Que importa? Rombos são detalhes insignificantes. Afinal se você dividir 6 bilhões por 160 milhões de brasileiros, cada um pagará uma insignificância. Ademais teremos a honra de receber um banco estrangeiro que, com certeza, irá nos adaptando a conviver com a globalização.
Agora, satisfeitos mesmo estão todos os anti-corintianos. Eu explico: estão torcendo para que o Hong Kong & Shangai Bank seja tão eficiente quanto o Excel e, em breve, patrocine um time de futebol que faça frente ao novo terror dos gramados; o Corinthians. A torcida maior é para que a equipe escolhida seja popular e de origem bem brasileira, times que tenham se originado de colônias estrangeiras devem fazer como o Palmeiras, buscar patrocínio nas multinacionais de seus países de origem.
Quanto ao Banco do Brasil e a Caixa Econômcia Federal não há motivo algum para preocuparmo-nos: dentro de dois ou três anos, quando a opinião pública já tiver se esquecido como esses bancos assumiram tais contas, serão acusados de incompetência pelo próprio governo e privatizados.
Até lá já estarão privatizadas a Vale, a Petrobrás e as empresas de eletrecidade e telecomunicação. Seremos então um país desenvolvido. Entraremos no Grupo dos 7 países ricos, provavelmente no lugar da França ou da Itália que insistem na besteira de manterem empresas estatais e não cobrirem os rombos de bancos, socializando o prejuízo entre a população.
Só uma coisa me preocupa. É saber quem dará emprego à Vieira de Andrade, esse pobre banqueiro que ficará, quem sabe, como Calmon de Sá, sem eira nem beira nesse mundo cansando de guerra. Por outro lado, pensando bem, acho que não há motivo nem para essa preocupação, Andrade Vieira já foi ministro do governo FHC e quem não se lembra de sua simpatia, de sua competência e de sua obstinada seriedade no trato da coisa pública?
Não há mesmo com que me preocupar. Só não entendo porque não saio por aí gargalhando de alegria.
*O autor é doutor em História Social pela
USP e diretor do CEUD/UFMS