Wilson Valentim Biasotto *
1-4-97
Teimosa como a mãe de São Pedro, somente foi ao laringologista quando percebeu que não tinha mais condições de trabalhar com aquela voz que mal lhe saia da garganta. Resultado: depois de minucioso exame - videolaringoscopia - ficou constatada a existência de um distúrbio, uma fenda, provocada pelo excesso de uso. Em resumo, falou demais durante a vida e agora ressente-se desse mal.
Mas não pense o caro leitor que passou a vida falando besteiras. Dedicou-se ao ensino. Mais de vinte e cinco anos de trabalho! Quando completou vinte e cinco anos, mais por medo das mudanças nas regras da aposentadoria que por vontade, requereu a aposentadoria e ficou aguardando os trâmites legais. Não foi atrás de político ligado ao governo para acelerar o processo. Apenas aguardou.
Iniciado o tratamento com um fonodiólogo foi-lhe recomendada licença de trinta dias. Ela ainda insistiu em esperar um pouco, argumentando que logo sairia a sua aposentadoria e então poderia tratar-se. Mas não teve jeito, diante das orientações médicas, somadas ao desconforto da moléstia, dobrou-se, finalmente.
Em má hora, digo-lhes, isso ocorreu. Não faltará quem diga que tirou a licença somente porque estava com tempo de serviço completo para aposentar-se. Se tal coisa ouvirem, tenham-na por pura mentira. Justamente por não ter recorrido ao auxílio de políticos, aguardava já há nove meses, uma gestação, e contribuía graciosamente com a Escola onde trabalhou tantos anos.
No dia 1º de abril, quando haviam decorridos dez dias de sua licença, justo no dia consagrado à mentira, finalmente, saiu no Diário Oficial a publicação de sua aposentadoria.
*O autor é doutor em História Social pela
USP e diretor do CEUD/UFMS