Wilson Valentim Biasotto *
18-ago-97
Ter comprado aquela casa com um terreno que atravessava o quarteirão, cem metros de fundo, fora um golpe de sorte. Sair do sítio para uma casa sem quintal teria sido traumático, principalmente para os mais velhos, não para tia Dete, já acostumada à vida da cidade. Ela estudara até então em colégio com regime de internato, coisa comum nos anos cinqüenta e sessenta. Como a família mudara para a cidade deixou o internato para concluir o normal (atual magistério) na companhia dos pais e irmãos.
Foi, aliás, debaixo de uma das muitas árvores do quintal dessa casa que minha tia improvisou uma sala de aula, com um único aluno, para treinar a sua aula de estágio. No dia seguinte, todo cheio de importância, vangloriava-me de conhecer antecipadamente do que se tratava.
Ano seguinte, minha tia, já lecionando, emprestou-me um livro, usado como material didático: “A galinha dos ovos de ouros”. Levei-o para a minha classe e o “Zé Orelha” inventou de lê-lo durante a aula. Pura burrice, Dona Irene, incontinenti, tomou-o para si e, apesar dos meus protestos, nunca mais o revi.
Foi o primeiro de uma série de livros que perdi, mas os demais foram emprestados e jamais devolvidos, esse, da galinha dos ovos de ouro, me foi tirado indevidamente. Essas injustiças a gente jamais esquece embora o meu prejuízo não tenha sido tão grande. Eu já o havia lido, já conhecia muito bem a moral da história: se um dia viesse a ter uma galinha dos ovos de ouro jamais a mataria, ao contrário, trataria dela com todo o carinho, daria bastante milho e até mesmo lhe faria um ninho especial.
O tempo foi passando e devagar fui percebendo que a galinha dos ovos de ouro não precisava ser, necessariamente, uma galinha, podia ser um diploma, um ofício, um emprego, um sítio, uma empresa, uma série de coisas das quais, com mais ou menos esforço, tiramos o nosso sustento, nossa segurança, nossa estabilidade.
Hoje percebo mais uma coisa: não fui a única vítima a perder o livro de histórias contando sobre a galinha dos ovos de ouro, muitos outros alunos devem ter sofrido o mesmo problema, inclusive governadores, ministros, presidentes, deputados e senadores. O detalhe é que a professora dessas autoridades deve ter lhes tomado os livros antes que tivessem feito a leitura e compreendido a moral da história. Senão, com certeza, haveriam de entender que Vale do Rio Doce, Petrobrás, Enersul, Sanesul, Telems, Eletrobras e inúmeras outras empresas públicas são galinhas dos ovos de ouro que estão sendo mortas. E aí se vai a rentabilidade, a estabilidade, a segurança.
*O autor é doutor em História Social pela