Wilson Valentim Biasotto*
Minha filha chegou meio assustada e não demorou a revelar-me o motivo de sua preocupação ao perguntar-me se existiam possibilidades concretas para o mundo se acabar no dia 11 de agosto, como estavam comentando.
Fiquei à vontade para dizer-lhe que não se preocupasse. Expliquei-lhe a existência de teorias milenaristas que difundem o fim do mundo a cada fim de milênio. Nas proximidades do ano mil as coisas não foram diferentes. Encurtando a história, por volta de mil e três, como o mundo não tivesse se acabado, houve uma reação positiva e, após mil e trinta e três, um milênio após a paixão de Cristo, confirmada a continuidade do planeta, verificou-se uma verdadeira euforia psicológica que, aliada a outros fatores de ordem material, contribuiu para um arranque espetacular da civilização européia.
O leitor há de convir comigo, para o fim do mundo precisaríamos de sinais. E que sinais tivemos, ao menos no Brasil, antes de 11 de agosto?
Nenhum. A impunidade, o fisiologismo, a corrupção, a subserviência em relação a Washington, o aumento da concentração de renda, a progressão da exclusão social, enfim, tudo continuou igual até o 11 de agosto. Como então, o mundo haveria de se acabar sem que houvesse algum sinal?
Mas, cuidemo-nos, se na primeira quinzena do fatídico agosto não tivemos nenhum sinal, ao seu termo, vêm-nos o primeiro. Soemos as nossas trombetas, construamos abrigos, o primeiro sinal está dado: a oligarquia latifundiária de Mato Grosso do Sul, pela primeira vez em sua história, indispõe-se com um governo de Estado. Sai às ruas, impetra mandados de segurança, recorre às últimas instâncias judiciárias. Agora sim, estamos próximos do fim. E tudo porque o latifúndio não suporta contribuir com uma pequena parcela para a recuperação das estradas do estado. Estradas destruídas, diga-se de passagem, por obra de seus próprios representantes. Ou os governantes de Mato Grosso do Sul e de Mato Grosso que antecederam Zeca do PT não foram legítimos representantes do latifúndio?
É dessa forma que se acirra a luta de classes. E ainda vêm, boa parte da imprensa, designando de xiitas, de radicais a todos aqueles que se indignam com esse tipo de atitude. Que querem que se faça? Que as empregadas domésticas contribuam com parte de seus salários para a recuperação de nossas estradas? Ou seria preferível optar por mais cinco anos sem reajuste de salários para o funcionalismo público? Outra saída não seria arrebentarmos de vez com as pequenas e médias empresas?
Só que tudo tem o seu limite. Se os privilegiados da sociedade brasileira insistirem na manutenção desse estado de coisas, estarão contribuindo para a exarcebação dos espíritos. Depois não venha a imprensa me dizer que a esquerda é radical e que o MST é um bando de desocupados fora-da-lei.
A convulsão social que poderá estourar com mais força no Brasil, por estas e outras semelhantes, será de responsabilidade exclusiva dessa elite gananciosa e despreparada politicamente, que insiste em acumular o máximo, sem abrir mão de nada.
Desculpe-me o leitor. Não sou profeta do apocalipse, ao contrário, sou um otimista inveterado, mas nem sempre as fábulas italianas que lhes conto de vez em quando prestam-se para ilustrar as nossas atuais condições sociais. Quem sabe em 2003 ou 2033 tenhamos repetida a mesma euforia psicológica que dominou a Europa pós ano mil e encontremos o nosso caminho rumo a uma sociedade mais justa e mais solidária.
*O autor é doutor em História Social pela USP
e diretor do Câmpus de Dourados da UFMS