Wilson Valentim Biasotto*
13/6/99
Aumenta a violência nas escolas. Nos Estados Unidos chega-se ao cúmulo de se praticar, no mundo real, os jogos violentos do mundo virtual. Ou seja, meninos atiram com armas de verdade, como se estivessem apertando o botão de seu videogame.
No Brasil e, de forma particular, em Dourados, nossas escolas não estão imunes, atos de violência física são mais ou menos freqüentes. Ameaças de bombas são comuns. Professores e diretores muitas vezes sentem-se intimidados e a nossa polícia não é especializada para lidar com esses jovens.
Na verdade não sei se essa juventude rebelde precisa de polícia especializada a vigiar-lhe os passos. Parece-me relativamente comum que a violência, seja nas ruas ou nas escolas, recrudesce em épocas de crise. Quando existe a perspectiva de emprego e, por via de conseqüência, de uma vida melhor, a violência fica restrita praticamente aos casos patológicos.
Um santo da Igreja, falecido em 430, portanto em meio a crise que levou o Império Romano à derrocada, escreveu em suas “Confissões”:
“Se resolvi dirigir-me a Roma não foi porque meus amigos, que me aconselhavam essa viagem, me prometessem maiores lucros e maior dignidade, se bem que nesse tempo também estas razões moviam o meu espírito. O motivo principal e quase único assentava em eu ouvir dizer que os rapazes estudavam aí mais sossegadamente, refreados por mais regrada disciplina. Não invadiam desordenadamente e imprudentemente a escola de outro que não tinham como professor, nem eram admitidos sem sua licença. Em Cartago, pelo contrário, a liberdade dos estudantes é vergonhosa e destemperada. Precipitam-se cinicamente pelas escolas adentro e com atitude quase furiosa perturbam a ordem que o professor estabeleceu como necessária ao adiantamento dos alunos. Com uma insolência incrível, cometem mil impropérios que deviam ser punidos, se o costume os não patrocinasse”.
Percebe o leitor? Agostinho, antes de ser canonizado, deixou de dar aulas em Cartago e mudou-se para Roma em busca de alunos mais comportados. Duvido que os tenha encontrado. Não é nada fácil prender a atenção do jovem, especialmente do adolescente, com lições que não lhe despertem, de certa maneira, o interesse. E, da mesma forma que na Roma decadente, o que mais faltava era perspectiva de uma vida melhor, também agora se nos apresenta situação análoga.
Sabemos, entretanto, que não há nada melhor para despertar o interesse de nossos jovens que a perspectiva de um bom emprego. Em tempos incertos seria interessante seguirmos os ensinamentos do próprio próprio Santo Agostinho, “... para aprender, é mais eficaz uma curiosidade espontânea do que um constrangimento ameaçador.”
Saíamos, portanto, com a urgência que esses tempos requerem, em busca do que possa despertar a curiosidade espontânea de nossos jovens.
*O autor é doutor em História Social
pela USP e diretor do CEUD/UFMS