Wilson Valentim Biasotto*
É comum que os cemitérios sejam demarcados longe dos centros urbanos e que, com o passar do tempo, na medida em que as cidades se expandem, acabem sendo cercados por bairros residenciais.
Numa determinada cidade, que possuía um cemitério no centro, formaram-se dois partidos. Um, dos moradores das adjacências do cemitério que não se sentiam bem, queria mudar o cemitério para longe, advogando que o ambiente era muito triste, que no dia dos finados não se suportava o movimento, que havia grande desvalorização imobiliária, enfim, tinha lá as suas boas razões. Penso que não faltavam também, dentre os integrantes desse partido, aqueles que tinham medo de almas penadas, mas isso ninguém comentava.
O outro partido defendia que o cemitério deveria permanecer no mesmo lugar, pois, segundo seus integrantes, não se deveria violar o túmulo dos antepassados, o local, diziam eles, era sagrado.
Sabendo de antemão que o prefeito lia no mesmo breviário daqueles que defendiam a permanência do cemitério no local onde se encontrava, os partidários da mudança, ao invés de requerimentos, resolveram adotar a política do terror, combinaram que assustariam os moradores até que eles permitissem a mudança. Quando chegava a noite, cobriam-se com lençóis e andavam entre os túmulos gritando: “eu não quero estar aqui... eu não quero estar aqui” (mi no vui mia star quà... mi no vui mia star quà... ou, no macarrônico de meus velhos: mi no voghio star quà... mi non voghio star quà”).
Na cidade não se falava de outra coisa. Se os próprios mortos queriam deixar aquele local, porque não providenciar, com a devida urgência, a remoção? Os defensores da mudança do cemitério reforçavam os seus argumentos alegando que estando sepultados no meio da cidade, os mortos jamais atingiriam o que tanto almejaram em vida: o descanso.
Por seu lado, os partidários da permanência do cemitério no local onde estava, ou seja, no centro da cidade, ficaram meio aturdidos. Muitos dentre eles diziam não acreditar em fantasmas, mas quando eram desafiados para ir ao local, desconversavam. O grupo estava quase entregando os pontos, isto é, permitindo a mudança do cemitério, quando uma velhinha propôs que esperassem mais uma noite que ela daria um jeito naquilo.
À tardinha, sem que ninguém a visse, a velha entrou no cemitério, deitou-se numa tumba vazia, cobriu-se com um lençol e ficou lá, quietinha, esperando.
Quando anoiteceu de vez, começou a ouvir as mesmas palavras de todas as noites: “eu não quero estar aqui... eu não quero estar aqui...”. Quando o grupo se aproximou do local onde estava a velhinha, ela levantou-se num salto e gritou mais alto que eles: “se não querem estar aqui, vão-se prá lá” (Se te vui mia star quà va via par de là. No italiano macarrônico simplificava-se dizendo “se no vui star quà via par de là).
Foi uma correria, um Deus nos acuda, e naquela cidade nunca mais alguém falou em mudar o cemitério de local.
*O autor é doutor em História Social pela USP