Wilson Valentim Biasotto*
Um homem alimentava a sua família com a atividade de pescador. Belo dia estava ele a pescar e não conseguiu pegar absolutamente nada. Tantas vezes lançou a rede e ela voltou vazia que o homem foi se desesperando. Pensava na família que deixara sem nada para comer. Implorou a todos os santos que conhecia e não obteve resposta satisfatória; apelou então para o diabo. Se enchesse a rede daria a alma para o diabo.
Lançou a rede e retirou-a cheia de peixes. A família fartou-se.
Passado uns tempos o homem começou a ficar triste, tão triste que a mulher obrigou-o a contar a história toda. O dia que prometera a alma para o diabo estava próximo e ele não tinha mais nada a fazer se não se arrepender de ter feito aquilo.
A mulher, querendo ser muito esperta, tranqüilizou o marido. Pediu-lhe ela que abrisse um buraco na sala e que quando o diabo chegasse ele se meteria lá e ela faria o resto.
Dito e feito, no dia combinado o diabo bateu à porte. O marido enfiou-se no esconderijo e a mulher, depois de tampar bem buraco, deixando apenas um pequeno orifício para que ele respirasse, atendeu.
O diabo, que estava disfarçado em um moço, perguntou se o marido dela estava, ao que imediatamente a mulher respondeu que não esperando que o visitante indesejável fosse logo embora.
As coisas, entretanto, não saíram exatamente como a mulher havia previsto. O moço, diabo, puxou uma cadeira, sentou-se, e dizendo que esperaria um pouco coincidiu de botar o pé bem em cima do buraco que servia de respiradouro para o homem que lhe prometera a alma.
Sem ar o homem faleceu e a conclusão a que se chega é que não devemos brincar com fogo se não quisermos correr o risco de sairmos chamuscados.
*O autor é doutor em História Social
pela USP e diretor do CEUD/UFMS