Wilson Valentim Biasotto*
19.06.99
Muitos se julgam espertos demais. Alguns, inclusive, vivem matutando a melhor forma de passar os outros para trás. Os espertalhões que se cuidem, entretanto, não devem se julgar insuperáveis, ao menos não antes de conhecerem essa história da velha que enganou até o diabo com a sua astúcia.
Chovia muito. O casamento seria no dia seguinte e a noiva estava desesperada. Naqueles tempos, não havendo asfalto, os caminhos, com as chuvas, ficavam intransitáveis. O casamento seria um fracasso.
Em seu desespero a moça recorreu a todos os santos mas, pelo visto, ninguém lhe dedicou atenção, pois acabou apelando para o diabo. Se a chuva parasse, quando fosse chegada a sua hora, entregar-lhe-ia a alma.
O diabo, interesseiro, apareceu disfarçado em um belo moço para fechar o acordo. Faria parar de chover e, em troca, levaria a alma da moça. Esta, meio atordoada com aquela aparição, ainda teve clareza de raciocínio para negociar: daria sua alma ao diabo se ele fizesse parar de chover e, quando viesse buscá-la, realizasse três tarefas que ela determinaria na hora.
Como que por encanto a chuva parou. Os caminhos, no dia seguinte, estavam bons. O casamento foi um sucesso.
Passados muitos anos, veio a velhice para aquela mulher e, num belo dia apareceu-lhe aquele moço que negociara com ela e que na verdade era o diabo disfarçado. Sem muita cerimônia foi lhe dizendo que chegara a hora.
A velha, tranqüila, pediu ao diabo que subisse num morro que havia ali perto, logo estaria lá. E assim fez. Chegando ao topo, disse ao diabo que lhe daria a primeira tarefa, e abriu um saco que estava cheio de penas. Ao chacoalhar o saco, as penas, ao vento, espalharam-se por todos os lados, mas o diabo, muito esperto, pulava daqui, pulava dali e mesmo fungando de cansaço conseguiu recolher todas as penas.
Ato seguinte, a velha abriu outro saco, que estava cheio de pulgas, e chacoalhou. As pulgas se espalharam pelo morro, mas o diabo, mesmo fungando como ele só, foi pegando uma a uma até que conseguiu prender todas novamente dentro do saco.
Muito bem, disse a velha. Falta-lhe uma única tarefa. Sentou-se então no cabo de uma cesta que também havia levado e soltou um belo pum. Pega esse, disse ela. O diabo ergueu a cesta e o cheiro se espalhou. Pulava de um lado e de outro, fungava desesperado e dizia: sinto o cheiro mas não vejo, sinto o cheiro mas não vejo. E, achando-se vencido, o diabo aproveitou o embalo de seus pulos e desapareceu esmurrando-se na cabeça.
*O autor é doutor em História Social
pela USP e diretor do CEUD/UFMS