Wilson Valentim Biasotto*
18.06.99
Não sei exatamente para quem conto essa fábula. Talvez ela sirva ao público em geral, mas, creio, servirá particularmente àquela mãe, ou pai, que puniu severamente o filho, por um pequeno desvio. Quem sabe essa história possa interessar àquele juiz que atribuiu pena pesada ao pequeno delito, ou ao professor que, muito cônscio de seu dever, reprovou o aluno por um décimo apenas.
Pensando bem creio que ela deveria servir-me para consumo próprio, para que eu pudesse refletir melhor sobre muito do que fiz e do que faço. Se não a guardo só para mim é porque prometi contar aos leitores algumas fábulas italianas, então, vai mais essa, a quinta da série.
O casal era pobre, trabalhava na roça. Não digo que tivesse consciência política de sua pobreza, todavia, bem sei, a situação material não impedia que tivesse dignidade e esperança no futuro.
Nascido o primeiro filho, a mãe quis logo batizá-lo e já foi providenciando a madrinha. O pai, que deveria escolher o padrinho, alertou que somente batizaria o filho quando encontrasse o homem mais justo do mundo.
Imbuído desse propósito, o que mais fazia era ficar pensando no perfil das pessoas que eventualmente pudessem satisfazer-lhe o desejo. Pensou no vizinho, no compadre, no vigário e até no bispo, que vira uma única vez na vida. Nada feito, em cada um encontrava um óbice.
O que não se pode negar é a obstinação desse bom homem. Apesar da dificuldade que encontrava em achar um homem justo, continuava a insistir em sua busca.
Belo dia, caminhava de volta do trabalho para casa, quando encontrou um velhinho. Conversa vai, conversa vem, disse ao desconhecido que estava a procura do homem mais justo do mundo. Então, disse-lhe o velhinho, pode cessar a sua preocupação, você está falando com o homem mais justo do mundo.
Feliz, já pensando no batizado, o homem acompanhava o velhinho; maravilhado, não notava o local onde andavam; claro que percebia as lindas paisagens que se sucediam, mas não se dava conta de nada.
Finalmente algo lhe despertou a atenção. Em determinado local havia milhares de velas acessas, umas maiores, outras menores, mas todas acessas. Andavam que andavam e aquelas velas foram intrigando o homem que não resistindo a curiosidade perguntou o que era aquilo.
O velhinho explicou que aquelas velas mediam a duração da vida das pessoas, quer dizer, determinavam o tempo de vida dos indivíduos. Se a vela estivesse grande significava que seu dono viveria ainda muito tempo, se estivesse pequena, ao contrário, o seu infeliz proprietário morreria logo.
Impressionado, o homem quis saber qual era a sua vela. O velhinho mostrou-lhe um toquinho, uma vela com a chama tênue, praticamente em extinção. Assustado, o homem regateou dizendo se não dava para pegar um pedacinho, pequeno que fosse de uma vela maior, para acrescentar à sua.
Lamento, disse-lhe o velhinho: você encontrou o homem mais justo do mundo.
*O autor é doutor em História Social