18.06.99
Nesses tempos em que os ventos neoliberais continuam soprando nesses rincões tupiniquins, para a felicidade do capital internacional, temos que nos apressar, temos que correr muito para sermos o mais esperto, o melhor, o mais isso, mais aquilo. Se bobearmos o cachimbo cai. Não se fala mais em papel social da industria, do comércio, da própria terra. A competição é assombrosa!
Não pense, entretanto, o leitor, que a competição é coisa de nosso tempo. Na verdade, como já dizia o velho rei Salomão, “não há nada de novo sob o sol”. Confira, com a leitura de mais essa fábula italiana, a quarta que conto, se a expressão não está, de fato, correta.
O Diabo, certa feita, fez um desafio a Deus para ver quem fazia, mais depressa, um sapatão, quer dizer, um par. Tudo pronto para a disputa, os dois começaram a empreitada.
Deus, com toda a calma do mundo, cortava pedaços pequenos de barbante, passava pelo buraco da agulha e, ponto a ponto, ia confeccionando a sua obra. O Diabo, na ânsia de acabar primeiro, cortava pedaços enormes de barbante e, na hora de dar os pontos, complicava-se todo pois o fio enredava-se e, quanto mais depressa queria ir, mas se atrapalhava.
Claro que Deus, com a sua paciência, venceu o diabo. Seus sapatões ficaram prontos e muito bonitos. O diabo, por sua vez, nem deu conta de acabar a tarefa, mas não se conformou, imediatamente lançou novo desafio: fazer um moinho. Venceria quem terminasse primeiro o melhor e mais bonito moinho.
Na região em que se encontravam fazia muito frio, o rio estava congelado, então, Deus, teve um trabalho enorme para ir a um monte próximo carregar as pedras, encaixá-las uma a uma e ir dando forma a sua obra. O diabo, não querendo perder outro desafio, e imaginando-se muito esperto, foi construindo o seu moinho com as pedras de gelo que retirava do próprio local onde estava.
Acabada a obra sentou-se e ficou, triunfante, a espera de Deus, que fora buscar outra pedra. Gozava antecipadamente a sua vitória.
Quando Deus apontou distante, também despontou o sol e, impiedoso, derreteu o moinho do Diabo. Mais uma vez, sem muita pressa, mas pensando em fazer bem feito, Deus ganhou a disputa.
Talvez por causa dessa fábula é que meu pai tenha me ensinado, certa feita, para não fazer as coisas mal feitas só para acabá-las rapidamente. No futuro ninguém saberá se eu estava apressado, ao fazer determinado trabalho, criticarão a obra em si, como ela se encontra.
*O autor é doutor em História Social
pela USP e diretor do CEUD/UFMS