Wilson Valentim Biasotto*
O nosso jeitinho brasileiro pode ter se tornado inigualável em comparação à maneira de agir de vários outros povos do mundo, mas não podemos deixar de reconhecer que os italianos já foram muito bons nisso. Ao menos é o que infiro ao lembrar-me de algumas fábulas italianas. Veja o leitor, por exemplo, como o homem esperto dessa fábula deu um jeito de entrar no céu.
Ao morrer, nosso personagem foi bater à porta do céu, imaginava que lá seria muito bem recebido, afinal, ao longo de sua vida, na terra, não havia cometido faltas assim tão graves.
São Pedro entreabriu a porta e bastou vê-lo para dizer que no céu não havia lugar para ele. E foram em vão todos os argumentos, as réplicas e mesmo as súplicas do homem que imaginava merecer o céu. São Pedro continuou inabalável.
Percebendo que não tinha como convencer São Pedro, o nosso italiano, quando percebeu um rápido descuido do guardião das chaves do céu, jogou seu chapeuzinho lá dentro e continuou a insistir somente por insistir, como bom italiano que era.
Desconfiado de que o pretenso hóspede não iria embora por bem, e tendo mais o que fazer, São Pedro não teve outra alternativa: pediu licença para fechar a porta.
_ Tudo bem, disse o italiano, permita-me porém pegar o meu chapéu, que, por descuido, joguei aí dentro.
Concedida a permissão, o homem entrou e, rapidamente, sentou-se sobre o chapéu..
_ Moço, vamos, pegue o seu chapéu e saia.
_ Olha, São Pedro, o senhor me desculpe, mas estou sentado sobre o que é meu, o senhor não tem o direito de me tirar.
E lá ficou o homem, até hoje.
Acabou-se a história, mas para que essa crônica não fique tão curta, que destoe das demais que já contei nesse espaço, ofereço ao leitor atento, que tem acompanhado os debates sobre o ensino superior em Dourados, o que entendo ser uma boa opção: sugiro que a sociedade douradense jogue o seu chapéu no espaço da Cidade Universitária de Dourados e diga em alto e bom som que esse canto é nosso e vamos ocupá-lo de forma a garantir aos nossos jovens o futuro que merecem e que nós almejamos.
*O autor é doutor em História Social pela USP
e diretor do Câmpus de Dourados da UFMS