Wilson Valentim Biasotto*
3/8/99
Desejo reproduzir nesse espaço, tão fiel quanto minha memória permitir, as palavras que proferi no último dia dois de agosto, por ocasião da abertura da VI Semana de Pedagogia e do encerramento do Curso de Formação de Alfabetizadores, no Câmpus de Dourados da UFMS.
Antes, porém, devo informar que a VI Semana de Pedagogia teve como eixo principal de suas atividades a reflexão sobre as mudanças que o curso de Pedagogia sofrerá em conseqüência da nova Lei de Diretrizes e Bases e, no que se refere a formação de alfabetizadores, que tratou-se de curso ministrado para professores do Maranhão, que vieram em busca de treinamento para reverterem o quadro de analbabetismo que impera em seus municípios (Santa Quitéria e São Bernardo), dentro do Projeto de Alfabetização Solidária, que envolve universidades, Ministério da Educação, municípios e empresas privadas.
“Morreu o rei, viva o rei”, dizia-se na Idade Média. As cartas que as Cortes mandavam para as famílias enlutadas de soberanos europeus, continham palavras que refletiam a tristeza pela morte do rei e, ao mesmo tempo, palavras de alegria pela coroação do novo soberano. Quanto ao encerramento e ao início de cursos é bem verdade que sempre fica a saudade de quem parte e a alegria em receber gente nova, todavia, em se tratando de Educação, temos que vê-la como um processo.
Antigamente, quando uma pessoa estava para falecer, colocava-se em sua mão uma vela acessa, simbolizando que a vela deveria iluminar o novo caminho daquela alma. Num sítio afastado, o pai da família estava no leito de morte e os filhos, percebendo que expirava, procuraram em vão uma vela. Como as buscas foram inúteis, um dos filhos foi ao fogão de lenha, pegou um tição, avivou a brasa e deu para que o moribundo segurasse. O agonizante, olhou bem para aquilo e, antes do último suspiro, proferiu solenemente: “morrendo e aprendendo”.
Quer dizer que o aprendizado é um processo contínuo que não começa e nem se esgota com a abertura ou encerramento de um curso e, se por um lado, o aprendizado informal pode ser doloroso, o aprendizado formal deve ser prazeroso. Para tanto, cabe a nós, professores, levarmos em conta que o magistério, mesmo não sendo um sacerdócio, mas uma atividade profissional, reveste-se de importância especial. Repito isto desde 78, quando andei boa parte deste estado objetivando a formação de associações de professores e, hoje, acrescento, se o magistério não é um sacerdócio é um ato solidário. O sacerdócio pode implicar somente em compaixão, a solidariedade implica no reconhecimento do outro como semelhante.
Se o professor reconhecer no próximo um semelhante, o ato de ensinar deve ser um ato solidário, um ato de amor. Passando pelo coração o conhecimento produzido pela mente humana é muito melhor absorvido pelos educandos.
*O autor é doutor em História Social pela USP
e diretor do Câmpus de Dourados da UFMS