Wilson Valentim Biasotto*
Queridos pais,
Espero que esta vá encontrá-los gozando de plena saúde. Confesso que escrevo-lhes com certa preocupação, estou sem notícias suas e bem sei que aos setenta e nove anos as pessoas são mais vulneráveis: qualquer resfriado pode abate-las, especialmente nesses tempos em que o inverno impõe-nos temperaturas mais rigorosas.
Não me critiquem se não telefono. Vocês sabem que não sou avarento, gastaria de bom grado algum dinheiro para falar-lhes e ouvi-los. Não culpem tampouco FHC, os funcionários públicos, como eu, podem muito bem pagar uma conta telefônica. Na verdade, nos últimos dois dias, insisti, dezenas de vezes, em ligar para vocês, mas não consegui. Lamento muito.
Talvez esses transtornos sejam passageiros. Nem quero pensar em voltarmos aos tempos em que cheguei em Dourados, em 1974. Naquela época, por volta das dez horas pedi uma ligação para falar-lhes. Desejava dizer-lhes que chegara bem, que fizera boa viagem, essas coisas que deixam os pais mais tranqüilos. A telefonista tentava em vão obter sucesso. Eu insistia. A moça desculpava-se. Por Presidente Prudente não consigo, dizia-me ela, vou tentar por Ribeirão. E eu ficava aguardando e insistindo. Para encurtar a história, às 22 h., finalmente, conseguimos completar a ligação. Alguns segundos depois, decepcionado, eu desligava, cansado de gritar sem ser ouvido e sem escutar uma única palavra. Lá se foram vinte e cinco anos!
Por falar em lembranças, vocês se lembram da Oneide? Aquela vizinha nossa, minha amiga de escola? Oneide Aparecida Carlos, ela morava um pouco adiante de nós. Um belo dia tomei emprestado o seu caderno para copiar uma matéria. Folheando-o cometi a indiscrição de ver algo que ela tinha escrito para si, algo que deveria estar talvez num diário, não no caderno que me emprestara. Lá encontrei, na introdução ao texto, uma frase que refletia seu estado e sua situação: “Estou mergulhada sob a luz tosca de uma lamparina...”
Talvez para evitar que os estudantes ficassem à mercê da luz tosca das lamparinas, ou quem sabe para propiciar a industrialização do país, o governo foi encampando uma a uma todas as pequenas companhias de energia elétrica. E, para que uma ligação telefônica não demorasse doze horas, o governo foi encampando também as pequenas empresas telefônicas de modo que, ao menos até ontem, podíamos conversar, com pessoas que se encontrassem nos mais distantes rincões desse país. A demora, quase sempre, não passava do tempo que gastávamos para a discagem.
Por aqui está tudo bem. Desculpem-me se não entro em detalhes, mas tenho pressa de postar essa carta logo. Vai que privatizam também os correios!
Não, não se preocupem. Se privatizerem os correios tanto melhor, ao invés de enviar-lhes cartas, iremos pessoalmente vê-los. Afinal ainda temos a Petrobrás que nos fornecesse gasolina. Não, não sejam pessimistas, se privatizarem a Petrobrás e exportarem todo o nosso petróleo para pagamento de nossas dívidas restar-nos-a os burricos. De qualquer forma nos veremos.
Lembrança a todos nosso queridos e um grande beijo.
Do filho que os ama
Wilson
PS. Não há a mínima possibilidade de privatização da ponte sobre o rio Paraná. Não se preocupem, de qualquer forma conheço o val do rio. (para os leitores mais novos informo que PS quer dizer “post scriptum”, uma expressão latina que significa depois do escrito, o nosso atual “em tempo”).
*O autor é doutor em História Social
pela USP e diretor do CEUD/UFMS