Wilson Valentim Biasotto*
Brevíssima despedida
Ao sufragar o nosso nome em outubro de 2000, para ocuparmos uma vaga na Câmara Municipal de Dourados, o povo de Dourados concedeu-nos a honra de representa-lo nesse mandato e permitiu-nos a oportunidade de pagarmos à nossa cidade um pouco do débito que contraímos com ela ao longo de mais de 30 anos em que aqui vivemos.
Deixando para trás parentes e amigos, chegamos em Dourados em março de 1974 com o nosso fusquinha 67, trazendo conosco a nossa pequena biblioteca, uma mala com as nossas roupas e, na carteira, 500 cruzeiros. Rompemos fronteiras com a esperança de construir a nossa vida a partir dos conhecimentos que conseguimos após anos e anos de estudos.
Um migrante! Um indócil professor migrante, que paga, até hoje, um elevado preço pela sua independência e altivez. Um migrante que encontrou em Dourados a sua Canaã.
Dourados, de fato, foi largamente responsável pela nossa alegria de viver, pela nossa felicidade, mas, por outro, sempre tivemos consciência de que o homem é o sujeito da história. Por isso não passamos essa vida em brancas nuvens. Trabalhamos muito e trabalhamos firme. Com alguns colegas visionários do Campus de Dourados da UFMS idealizamos, logo após a divisão do Estado, a UFGD – Universidade Federal da Grande Dourados. Criamos o Teatro Universitário de Dourados e o Centro de Documentação Regional. Conseguimos a abertura de diversos cursos de terceiro grau. Idealizamos o Festival de Teatro Universitário de Dourados e incentivamos, o quanto pudemos, a cultura de modo geral. Participamos ativamente do movimento sindical em Dourados, criamos o atual SIMTED, a atual FETEMS e a ADOURADOS - Associação dos Docentes da UFMS/Dourados. Com os professores Leocádia, Luís Antonio e Jorge Chacha idealizamos o projeto Cidade Universitária, hoje o maior projeto que a nossa região detém.
Eleito vereador em 2000 exercemos um mandato com muito trabalho, mas, de certa forma um mandato truncado. Primeiro por exercer a liderança do governo na Câmara em uma época em que a nossa oposição era maioria e em que a experiência petista em governar Dourados estava se iniciando. Não obstante, aprovamos todos os projetos do executivo que hoje tanto beneficiam a nossa cidade.
Mas, o nosso mandato foi truncado principalmente quando ocupamos a Secretaria de Governo do Município, onde defendemos ardorosamente o projeto que ajudamos a eleger.
Não tendo sido (re)eleito e não compondo a nova equipe de governo, deixamos a vida pública com a mesma serenidade com que nela ingressamos.
Como historiador social conhecíamos bem o funcionamento dos Poderes da República, mas como parlamentar e Secretário de Governo, penetramos nas entranhas do poder, sentimos o seu sabor e o seu cheiro. Estamos prontos e preparados para voltar ao mundo da historiografia e, com a consciência tranqüila do dever cumprido, refletir sobre esse período da história de nosso município.
Muito obrigado ao povo de Dourados, muito obrigado à nossa família.
O autor é doutor em história social pela
USP e professor aposentado pela UFMS