Pronunciamento em 13 de dezembro de 2004 – última sessão ordinária da Câmara Municipal de Dourados, exercício 2001 – 2004.
Nessa última sessão ordinária dessa legislatura, que nos perdoem os munícipes, mas ao invés das indicações de praxe, vamos deixar a nossa despedida.
Ao sufragar o nosso nome em outubro de 2000, para ocuparmos uma vaga nessa Casa, o povo de Dourados concedeu-nos a honra de representa-lo nesse mandato e permitiu-nos a oportunidade de pagarmos à nossa cidade um pouco do débito que contraímos com ela ao longo de mais de 30 anos em que aqui vivemos.
Deixando para trás parentes e amigos, chegamos em Dourados em março de 1974 com o nosso fusquinha 67, trazendo conosco a nossa pequena biblioteca, uma mala com as nossas roupas e, na carteira, 500 cruzeiros. Rompemos fronteiras com a esperança de construir a nossa vida a partir dos conhecimentos que conseguimos após anos e anos de estudos.
Um migrante! Um indócil professor migrante, que paga um alto preço pela sua independência e altivez
Mas, não obstante os (des)encontros e tropeços, no conjunto da obra, podemos dizer que em Dourados encontramos a felicidade. Constituímos uma família a qual amamos e pela qual somos amado e, se não amealhamos grandes conquistas materiais, obtivemos aquelas que, em nossa maneira de entender, são as duas maiores riquezas que se pode imaginar neste mundo: amigos (que temos em bom número) e um nome honrado.
Mas, se por um lado Dourados nos proporcionou tanto, por outro, sempre tivemos consciência de que o homem é o sujeito da história. Por isso não passamos essa vida em brancas nuvens. Trabalhamos muito e trabalhamos firme. Com alguns colegas visionários do Campus de Dourados da UFMS idealizamos, no início dos anos 80, a UFGD – Universidade Federal da Grande Dourados. Criamos o Teatro Universitário de Dourados e o Centro de Documentação Regional. Conseguimos a abertura de diversos cursos de terceiro grau. Idealizamos o Festival de Teatro Universitário de Dourados e incentivamos o quanto pudemos a cultura de modo geral. Participamos ativamente do movimento sindical em Dourados, criamos o atual SIMTED, a atual Fetems e a Adourados - Associação dos Docentes da UFMS/Dourados. Com os professores Leocádia, Luís Antonio e Jorge Chacha idealizamos o projeto Cidade Universitária, hoje o maior projeto que a nossa região detém.
Eleito vereador em 2000 tivemos um mandato com muito trabalho, mas, de certa forma um mandato truncado. Primeiro por exercer a liderança do governo na Câmara em uma época em que a nossa oposição era maioria e em que a experiência do PT em governar Dourados estava se iniciando. Não obstante, aprovamos todos os projetos do executivo que hoje tanto beneficiam a nossa cidade.
Mas, o nosso mandato foi truncado principalmente quando ocupamos a Secretaria de Governo do Município. Sabíamos que estávamos indo para o sacrifício, mas a nossa lealdade ao nosso Partido e ao Projeto de Governo que ajudamos a eleger, não nos permitiu a omissão e, na Secretaria de Governo, pelejamos como “El Cid”, o legendário guerreiro ibérico.
Voltando para a Câmara, continuamos a nossa luta e, mesmo tendo sido afastado do núcleo duro do poder, se não pudemos ser um grande pelejador, fomos talvez um Brancaleone sonhador.
2005 viveremos uma nova história. Se não formos o Cid e nem sequer o Brancaleone, haveremos de ser pelo menos um D. Quixote, porque mesmo que seja para lutar contra os moinhos de vento, o importante é lutar. Lutar por aquilo que acreditamos, lutar pelos nossos princípios, fugindo sempre das conveniências. Lutar para manter a esperança de que é possível a construção de uma sociedade mais justa, mais fraterna e, principalmente, mais igual.
Obrigado povo de Dourados, obrigado à minha família, ao PT, aos amigos e amigas, à nossa assessoria, aos funcionários dessa Casa, aos vereadores e vereadoras que, com elevado espírito público, suportaram as nossas rabugices.
Somos também muito gratos ao presidente Lula, ao Ministro José Dirceu, aos ex e atual ministros da Educação, respectivamente, Cristóvão Buarque e Tarso Genro, à bancada federal de MS, especialmente à bancada petista e também ao governador Zeca do PT, que nos ajudou muito, principalmente, no projeto da Cidade Universitária e da UFGD.
Obrigado por fim, ao Prefeito Tetila e a toda a sua equipe, com quem partilhamos uma administração democrática, dinâmica, inclusiva e honesta, reconduzindo Dourados para a senda do seu desenvolvimento.
Com a mesma serenidade com que ingressamos no mundo parlamentar, o estamos deixando agora. Como historiador social conhecíamos bem o funcionamento dos Poderes da República, mas como parlamentar e Secretário de Governo, penetramos nas entranhas do poder, sentimos o seu sabor e o seu cheiro. Estamos prontos e preparados para voltar ao mundo da historiografia e refletir sobre essa história. Muito obrigado