Wilson Valentim Biasotto *
Na tarde de ontem, primeiro de abril, entre 14 e 15 horas, ouvindo uma emissora de rádio, tomei conhecimento de que o papa morrera. Segundo a rádio duas agências internacionais de notícias haviam notificado a morte de João Paulo II, embora o Vaticano não houvesse confirmado. Às 20 horas, após ter me inteirado relativamente bem sobre o assunto sentei-me diante do computador para escrever uma crônica sobre o fato. Não tive dúvida em colocar como título “A morte do papa”, pois, muito embora o seu coração ainda pudesse pulsar, o pontificado de João Paulo acabara.
Uma pane no computador impediu-me de divulgar a crônica da maneira que a houvera escrito, no entanto, no dia 2, às 15 horas, passadas portanto vinte e quatro horas e a situação permanecesse a mesma, penso que posso reproduzir mais ou menos aquilo senti e pensei ontem a noite a respeito.
A agonia do papa fez-me lembrar a agonia dos reis, velados em seus leitos de morte dia após dia, resistindo como que a esperar que a nobreza do reino lhes viesse prestar exéquias Da mesma forma, o papa parece esperar que os fiéis, concentrados ou não no Vaticano, elevem à Deus as suas preces de modo a abrir-lhe o caminho do céu após 26 anos de pontificado.
A morte de um papa não é um acontecimento comum. Mesmo quando todos sabem que o momento fatal se aproxima ninguém pode fazer nada, a não ser esperar e rezar, pois nenhum cardeal está autorizado a proclamar-se candidato à vaga. Não se percebe nenhuma ansiedade, tudo parece transcorrer com muita naturalidade. No entanto, sejamos sinceros, o papa, apesar de todas as limitações impostas pelo peso da Instituição que governa, dá rumo à Igreja. Temos, por via de conseqüência, uma monumental questão política colocada: qual será o rumo da Igreja Católica Apostólica Romana após João Paulo II?
Dizia acima que mesmo que o coração ainda pulse, o pontificado de João Paulo acabara. Acabou-se de fato e o fim de seu mandato papal coincidiu com os últimos dias de sua vida, ou seja, governou segundo a sua vontade. Não estranhe o leitor, muitos mandatos acabam mesmo antes de começar, ou seja, a filosofia, o rumo que o governante gostaria de dar ao seu mandato perde-se na intricada conjuntura que encontra. João Paulo II, dada a sua força e perseverança impôs uma filosofia que vigorou para a Igreja desde o início de seu pontificado até os seus dias finais.
Não implica dizer que concordarmos com o seu pensamento doutrinário. João Paulo II foi um papa conservador. Muito conservador para o meu gosto. No entanto eu o respeito. Respeito porque foi uma criatura que acreditou no que fez e fez aquilo em que acreditou. Por isso, por esse respeito, senti muito mais a morte desse guerreiro que o fim de seu pontificado.
Muitas imagens ficarão desse papa peregrino, missionário, amante da paz. Cada um dos cristãos, cada cidadão do mundo, poderá escolher uma imagem para si. Particularmente, fico com aquela em que o papa, já muito frágil, foi posto diante de um microfone para falar alguma coisa, mas a voz não lhe saiu. O que teria dito ninguém jamais saberá. Logo ele, que falava nem sei quantos idiomas, partiu sem poder proferir as suas últimas palavras.
Talvez tenha sido melhor assim. A boca aberta, a mão direita levantada permanecerá como um gesto simbólico que será interpretado por cada qual segundo lhe aprouver.
Adeus João Paulo II, adeus João de Deus.