Conjugaram-se várias forças da natureza, muito mais do que aquelas necessárias para uma chuva branda, chamada na roça de chuva criadeira. Ajuntaram-se dessa feita à elevada umidade relativa do ar a entrada de frente fria, com nuvens espessas, escuras e carregadas, com raios, trovões e ventos fortes. A natureza toda ficou carrancuda, demonstrando claramente não estar gostando daquela associação. Então mandou água. A chuva veio pesada, primeiro escura, por trazer de volta à terra partículas de poluição, mas depois de ter descarregado as impurezas que pairavam no ar continuou forte, e caiu demoradamente sem se importar que o seu som monótono fosse quebrado de vez em quando pelo toque mais acentuado dos granizos que, embora pequenos eram tantos que escondiam o verde da grama com a sua cor esbranquiçada.
Na cidade o chão impermeabilizado pelo asfalto e pelas calçadas de concreto não permitiu a infiltração da água e as enxurradas avolumaram-se, escorregavam pelas galerias de águas pluviais quando elas eram achadas mas, de qualquer forma, em tubos ou pelo asfalto, corriam nervosas à busca do rio. E o rio irado por receber tanta água, corria célere para não afogar-se em si próprio, mas não adiantava, as suas insinuantes curvas, sabiamente desenhadas pela natureza para que o rio não fosse cavando um grande abismo a cada vez que se enfurecesse, funcionava como espécie de freio. Então o rio, como último recurso, lançou águas para fora de seu leito e foi invadindo os terrenos mais baixos.
Na turbulência eram arrastadas árvores inteiras, galhos quebrados, aves e animais que sucumbiram pela fúria da enchente, e os peixes desorientados e cansados por tanto nadarem contra a correnteza acabavam conformando-se e afastavam-se do leito caudaloso do rio para abrigarem-se em algum remanso que o acaso lhes proporcionava.
Não foi bom para a chuva a junção de tantos elementos estranhos. A destilação da água foi adulterada logo no início de sua jornada ao encontrar substâncias estranhas ao ar, substâncias que são filhas da poluição, a seguir, a água teve a sua pureza violentada pelo asfalto, outro elemento estranho à sua ocorrência natural, enfim não é atribuição da chuva carregar para o rio paus, latas, trambolhos de todo o tipo. Isso sem contarmos com todos os dissabores causados pelo encontro de ventos, raios, chuva e trovoadas.
Ainda bem que depois da tempestade vem a bonança, como dizia a minha vó. Os raios solares ao depararem-se novamente com a terra parecem vibrar novas energias, inspiram algo novo, algo nascendo. Alguma coisa em fim de tempestade tem sabor de fim de noite, nascer de novo dia. As águas procuram novamente o leito do rio.
Mas quanto maior a enchente, maiores as dificuldades. Não falemos das águas que voltam rapidamente à normalidade do rio. Falemos daquelas que não voltam tão fácilmente ao leito. Algumas delas não conseguem desvencilhar-se do lodo e pairam em meio a podridão do lamaçal. Muitas das águas que transbordaram purificam-se, umas com grande rapidez sobem límpidas através do processo de evaporação para virar chuva de novo, outras necessitam de mais tempo, infiltram-se no seio da terra até encontrarem um veio que as leve a um lençol de água subterrâneo que depois de vagar pela escuridão do subsolo, um dia voltará translúcida para a superfície.
Depois da tempestade é certo que vem a bonança, mas, para o bem ou para o mal, nem toda água volta ao leito normal do rio após a enchente.