O caro leitor, aficionado pelo esporte bretão, quando assisti a um espetáculo futebolístico de má qualidade somente mantém a televisão ligada porque já está ligada, desliga-la significaria expor o corpo a uma perda de calorias desnecessária, afinal, após o jogo sempre teremos um outro programa, basta, portanto, um pouco de paciência.
Nosso telespectador talvez de tão desinteressado sequer presta atenção nas palavras do narrador e do comentarista, mas, com toda a certeza, todos eles, evidentemente para que não mudemos de canal, jamais nos dizem aquilo que realmente estão vendo. Douram o espetáculo ao mesmo tempo em que nos acenam com a possibilidade de um gol ou de um grande lance.
Como de uns tempos para cá virou moda que nas transmissões esportivas haja também um comentarista para avaliar a atuação do árbitro, somos obrigados a suportar um rosário de milongas e a uma série de repetições de lances para que ao final o árbitro seja condenado ou absolvido. Mas, na pior das hipóteses o lance é duvidoso e pronto, está resolvida a questão.
Se o goleiro é importante ou amigo do comentarista nunca toma frango, apenas é infeliz no lance, se é um pobre coitado em inicio de carreira e sofre um gol é culpado pela derrota. O mesmo se dá em relação com os atacantes, meio-campistas e defensores.
O repórter de campo pode fazer a pergunta que quiser, mas terá sempre do jogador ou do técnico uma resposta ensaiada, treinada, repetida à exaustão. Nunca se viu um jogador falar que o técnico foi mal. O técnico por sua vez não substitui muitas vezes o jogador que está matando o time para não prejudica-lo em negociação que está prestes a se concretizar.
E assim vamos. Quando nos perguntam se estamos bem, será que querem mesmo saber? Às vezes dá vontade de fazer uma experiência e ficar uns cinco minutos contando ao nosso interlocutor uma série de problemas pessoais, mas como também não nos interessa que saibam se estamos ou não estamos bem, podemos estar morrendo que diremos que tudo está muito bem, obrigado.
Quer saber se um técnico, um secretário ou um ministro vai mal ou está até para ser afastado do cargo? Basta o presidente do clube, o prefeito o governador ou o presidente, como for o caso, saírem a público e dizerem que o técnico, secretário ou ministro em questão merece toda a sua confiança.
Para saber se um cidadão não será técnico, secretário ou ministro ou, enfim, se não ocupará algum cargo importante, basta que a mídia divulgue insistentemente que será.
O filme histórico não é histórico não só porque ninguém consegue reproduzir a realidade vivida, mas também porque não venderia se não houvesse um pouco de glamour.
Ao paciente terminal diz-se que a cirurgia extirpou-lhe completamente o câncer e àquele que realmente teve um câncer extirpado diz-se que se livrou de uma úlcera qualquer.
Em tese, para o advogado de acusação não existem inocentes, para os de defesa não existem culpados.
Ao professor que não preparou a aula fica melhor um mal-estar, uma dor de cabeça que o impossibilita. Ao aluno que não fez a lição nada custa por a mãe de cama.
Sobre o político nem se fala. Faz e acontece, mesmo porque o próprio povo não aceita que seja diferente. Já pensou o caro leitor se o político, quando abordado com um pedido de emprego disser que não foi eleito para arrumar emprego? Ou que não foi eleito para dar um remédio, uma passagem, um ônibus para o funeral, um bolo para o aniversário?
Quanto aos meios de comunicação, será que são mesmo “testemunhos ocular da história”? E os historiadores, recuperam o passado, ou ao menos o acontecimento histórico?
O ladrão nunca roubou, o policial nunca espancou, marido e mulher nunca traíram, aluno nunca colou.
Mentir ou dizer a verdade pouco importa. Se mentirmos para os que acreditam em nós eles tomarão nossas mentiras por verdades. Por outro lado se dissermos a verdade aos que não acreditam em nós pouco importará, eles não acreditarão.
Tanto faz ao pescador pescar o maior peixe do rio ou ver uma cobra fumar. Tudo será falso ao ouvinte que espera do pescador apenas mentiras. Mentiras de pescador.
Vai por aí. E eu com saudades de Elis: “o homem que diz sou não é / porque quem é mesmo é não sou / aquele que diz vou não vai / porque quem vai mesmo é não vou.
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