Já não era tão nenê, e embora já soubesse escrever, preferia ouvir a Bíblia, o que fazia com especial deleite. Não tenho a mínima idéia de quem era a voz do locutor que fazia a leitura, mas sei que era uma voz bonita, com impostação e dicção perfeitas. A rádio transmissora poderia ser a Bandeirantes, a Tupi ou mesmo a Nacional. Interessante é que nem a locução nem a rádio tenham ativado algum mecanismo de minha memória para que eu gravasse esses dados. No entanto as passagens bíblicas ficaram gravadas. Em uma delas Abrão levantou a espada para sacrificar o filho quando ouviu a voz de Deus. Abraão, é Abraão e não Abrão como eu gravara, mas isso é de somenos. Importa que eu tenha fixado dezenas de passagens e compreendido que o Velho Testamento era uma verdadeira vindita, uma espécie de olho por olho, dente por dente.
Pelas ondas da Rádio eu acompanhava o Velho Testamento, nas missas dominicais ouvia o Novo. Daí ia tirando as minhas conclusões. O Novo Testamento, ao contrário do Velho, é uma exaltação do amor e do perdão. Creio mesmo que a essência do cristianismo resida no amor e no perdão.
Não! Não me deixarei levar por uma comparação fácil a ponto de generalizar que no Velho Testamento imperava a força das armas. Mais forte que a arma de Abraão foi a voz de Deus, a palavra. A força da palavra encontra-se em muitas passagens bíblicas: “E Deus disse: faça-se a luz, e a luz se fez”. E “Deus disse”... era a força da palavra que estava lá, presente, assim como se faz presente também no Novo Testamento: “disse Jesus” a seus discípulos.
Qual teria sido mais forte: a força das palavras ou a força das armas?
E em nossa vida, na vida de cada um de nós o que teria surtido melhor efeito, uma boa palavra, uma palavra amiga ou uma surra. Quantas vezes teríamos morrido se nossos pais, nossos professores, nossos amigos, quando embravecidos conosco, ao invés de uma reprimenda nos apontasse uma arma?
Meus pais, cada qual carregando com firmeza os seus 85 anos nunca tiveram uma arma. A maior arma que meu pai possuiu foi um estilingue enorme que usava para afugentar lagartos. Minha mãe não tinha em casa sequer uma palmatória. Se os filhos apanhavam ela sofria também, não somente pelo desgosto de ter que bater, mas porque usava apenas as suas próprias mãos como armas. Na dor das mãos o castigo por ter-lhe faltado palavras.
Eliminada a palmatória das escolas, eliminadas as surras com as quais os pais demonstravam a falta de diálogo com os filhos, eliminemos agora as armas das mãos de quem não as use profissionalmente e torçamos para que em futuro próximo não sejam mais necessários profissionais que necessitem de armas.
Tanto papel e tinta e poucos argumentos convincentes, poderá dizer o leitor. Ora, digo-lhes, de que adiantariam mil argumentos diante de sua convicção?
Voto aberto. Voto sim. Não ficarei admirado e muito menos frustrado se perder. O que me admira e frustra é ver tantos cidadãos decentes defendendo o não. Não consigo entender. Quanto pensei estar chegando na idade do entendimento das coisas menos entendo.
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