E agora Dirceu? Você que é José. Perdeu uma batalha mas a sua luta não acaba pois nasceu pra lutar. Perdeu o mandadato mas não perdeu a fé.
José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil do Governo Lula, ex-deputado federal, cassado pelos seus pares em 30 de novembro de 2005, com base em acusações feitas por Roberto Jefferson, deputado também cassado, este por não apresentar provas sobre as suas denúncias.
E agora José?
Há pouco mais de um mês estivemos em Brasília e como parte de nosso trabalho atual conversamos com vários deputados e senadores. Num momento em que os assuntos administrativos cederam lugar a um pouco de descontração, perguntei para um deputado que compunha a CPMI se havia alguma prova concreta contra Zé Dirceu. A resposta foi incisiva. Não, não existe nenhuma prova concreta. Depois da resposta vieram as explicações. È verdade que os indícios são fortes, existia um esquema que só poderia ser comandado pelo chefe da Casa Civil. Enfim, indícios e mais indícios. Uma ambigüidade, bem ao estilo Capitu e Bentinho.
De lá para cá nada mudou em relação às provas, no entanto Dirceu foi cassado.
Os deputados se dividiram. O povo brasileiro nem tanto. Ao que tudo indica formou-se opinião de que Dirceu deveria ser mesmo cassado. Para uns foi um alívio, para outros foi justiça. E as provas?
Pode ser que no transcurso do processo investigativo se obtenha provas mais contundentes, no entanto, até o momento, na minha maneira de entender, José Dirceu não foi cassado pelo que eventualmente tenha feito de errado, mas por uma necessidade de se aplacar o desejo da opinião pública em acabar com os escândalos que se sobrepõe uns aos outros no Brasil.
Particularmente, como já fui vítima de muitas injustiças, desde os tempos da ditadura militar, tenho uma preocupação muito grande com a prática da justiça. Penso que jamais se deve condenar alguém sem a existência de provas concretas. Nesse sentido, como cidadão e como petista, sinto-me na obrigação de oferecer a minha impressão sobre o caso Dirceu.
Primeiro, desejo ressaltar que fiquei impressionado com a calma e serenidade com que se portou durante todo o processo. Não destratou ninguém, não procurou desqualificar os seus acusadores. Limitou-se a fazer a sua defesa. Tarefa que às vezes se tornava difícil dada a própria inconsistência das denuncias levantadas.
Mas Dirceu avançou além de sua defesa. Tanto em seu pronunciamento do dia 30 de novembro como em sua entrevista coletiva de 1º de dezembro levantou questões que muito contribuirão para o debate do futuro do país.
Abordo apenas algumas questões.
Se a Câmara o cassou porque comandou um esquema de “mensalão”, essa Câmara admite o mensalão e, por via de conseqüência, a necessidade de um expurgo. Se o cassou por conta do “caixa dois”, há que se ver se fica alguém na Câmara que não tenha usado esse processo. Se não havia provas contra Dirceu e a cassação foi eminentemente política, abre-se o precedente perigoso de um partido, eventualmente majoritário, executar sumariamente os seus adversários.
De qualquer forma, ficou evidenciado que há necessidade de uma reforma política. Certo? Então, por que não se prioriza essa reforma? E não são justamente os que cassaram o Dirceu que querem acabar com a verticalização?
Dirceu chamou a atenção também para o comportamento de parte da impressa brasileira e deu uma aula de jornalismo. Qualquer jornal, qualquer revista, qualquer órgão de comunicação tem o direito de tomar partido. Que tome partido, portanto, mas no local apropriado para isso que é o editorial do órgão. O que não se pode admitir é a invenção de notícias ou a manipulação dos fatos.
Dirceu ofereceu também uma aula de política. Não se escondeu. Atendeu às convocações. Enfrentou uma coletiva com mais de duas horas de duração. Não se furtou a responder perguntas e não deixou de dar uma boa alfinetada nos políticos golpistas que não desejam aproveitar a oportunidade para fazer uma reforma política e sim fazer sangrar o governo Lula para enfraquece-lo o quanto puderem para evitar a (re)eleição.
Acompanhei a via-crúcis de Dirceu. Confesso estar impressionado com a sua serenidade, com a sua postura firme, sua convicção inabalável. Impressionou-me também o silêncio dos “vendedores”, não houve apupos, manifestações desrespeitosas ou comemorativas. Admirei-me também com a postura dos jornalistas que acompanharam a sua coletiva. Nenhum insulto, nenhuma manifestação de que estivessem entrevistando um falsário cínico.
Temos que ter a paciência para aguardar mais esclarecimentos sobre mensalões e financiamentos de campanha no Brasil, mas de uma coisa estou convicto, se tiver que deixar o PT não será por causa do comportamento de Zé Dirceu.