Há dois ou três anos um primo que foi visitar a Itália voltou encantado com tudo o que viu por lá, mas especialmente impressionado com o planejamento de uma pequena indústria de implementos agrícolas que estava projetando a sua expansão: a previsão era de que nos dois anos futuros contrataria mais dois funcionários. Agora recebo e-mail de meu irmão, contando que um operário brasileiro, na Suécia há dezoito anos, diz que nenhum planejamento é executado em menos de dois anos na terra da Volvo.
Aqui por nossas bandas o americanismo do fast (rápido) até no alimentar-se (fast food), infelizmente ganha cada vez mais adeptos, enquanto na Europa trabalha-se a idéia do slow food (alimentar-se devagar) e já se fala em slow atitude, ou seja, a substituição do tudo rápido pela moderação, a troca da louca correria americana pela serenidade.
Mas, voltando ao funcionário brasileiro na Volvo, diz ele que admirou-se muito com a solidariedade sueca. Um colega de trabalho, que lhe deu as primeiras caronas, embora tenha chegado adiantado ao serviço, estacionou o carro bem longe da entrada. O nosso compatriota perguntou-lhe se o estacionamento era com vagas reservadas e se surpreendeu com a resposta: “não, não tem vaga reservada, é que como chegamos cedo podemos ceder os lugares mais próximos do portão aos que chegarem em cima da hora”.
Essas coisas podem parecer brincadeira, mas não são. Os europeus estão almejando mais qualidade naquilo que fazem, já descobriram que a pressa é inimiga da perfeição. Estão vivendo cada vez mais e sem tanto estresses porque perceberam que a vida é maravilhosa e de nada adianta essa tresloucada correria.
Esses exemplos acima mencionados fazem com que eu, envolvido que estou no projeto “Dourados: Cidade Educadora”, volte cada vez mais, a atenção para o comportamento dos europeus em geral.
Nesse ano de Copa do Mundo, os aficionados por futebol devem estar acompanhando boa parte das inumeráveis reportagens sobre o evento, assim com eu que vejo tudo o que o tempo me permite. Os enviados brasileiros fazem todo o possível para estabelecerem um clima especial para o evento. Entrevistam o menino suíço de 8 anos que conhece todos os jogadores brasileiros, mostram cada passo, cada bocejo de nossos milionários craques, não se cansam de filmar as bandeiras brasileiras espalhadas por todos os cantos, mostram o hotel, os campos, o hospital onde serão examinados os atletas, enfim, ficamos conhecendo Weggis e outros centros urbanos melhor do que conhecemos a nossa própria cidade.
Fico atento às imagens. Não quero ver apenas o que os olhos do comentarista vê, quero enxergar com os meus próprios olhos. Então fixo a minha atenção para o periférico. Enquanto o menino está sendo entrevistado analiso o comportamento das pessoas ao seu redor. Se o ônibus está sendo acompanhado pela filmagem, observo a multidão que aplaude a sua passagem. Se a Câmera se abre para a paisagem observo se há algum lixo amontoado em algum canto. Se é mostrada uma ciclo faixa com trafego intenso de bicicletas observo se elas são demarcadas com tachões, como aqui em nossa cidade, ou se basta a faixa indicativa.
Pelo traje das pessoas sei se está calor ou frio, se alguém esta atravessando pela faixa de pedestre observo se os carros param. Mas atenho-me também aos comentários, principalmente nos detalhes e percebo a estupefação de muitos deles que se impressionam com a educação do povo, com o comportamento civilizado do condutor do transporte coletivo, a atenção do gerente do hotel, enfim, mesmo os mais experientes e viajados repórteres demonstram a sua satisfação de serem bem tratados.
Acho isso tudo muito bonito e embora tenha consciência de que por lá também existam as mazelas da vida, gostaria de ver a nossa cidade, nosso estado, nosso país, elevando cada vez mais os seus padrões de civilidade e o seu Índice de Desenvolvimento Social.
Por essas e outras é que penso que o projeto “Dourados: Cidade Educadora” deva ser abraçado por todos aqueles que pensam de forma semelhante. Não quero migrar para lá, quero que a minha terra mude, sempre para melhor, até alcançarmos aquele padrão de vida e de comportamento de civilidade.