“Cest la vie”, diriam os franceses, tivessem sido eles os perdedores. Pudera, a seleção brasileira tem muito mais estrelas que a até então combalida seleção francesa. Conformar-se-iam com a inquestionável superioridade brasileira. Mas o perdedores fomos nós, que diremos? Principalmente nessa Copa na qual tudo parecia estar escrito para sermos hexa-campeões?
Caímos numa chave bem fraquinha, com, Croácia, Austrália e Japão. Nas oitavas de final pegamos a inexperiente equipe de Gana e nas quartas de final, uma França que passou pelas oitava aos trancos e barrancos, com dois empates (Suíça 0 a 0 e Coréia 1 a 1) e uma magra vitória contra Togo por 2 a 0.
A França era o time dos nossos sonhos para as quartas, imaginávamos que dureza seria enfrentar a Espanha, que caminhava invicta com oito gols prós e apenas um contra. Mas, a convincente vitória sobre a Espanha parece ter colocado os franceses em comunhão com os deuses do futebol e, contra o Brasil, nesse fatídico 01 de julho de 2006, jogaram um futebol vistoso, rápido, leal e acabaram nos vencendo por um gol.
O quadrado mágico brasileiro foi desfeito pelo excesso de teimosia aliada à falta de ousadia de nosso técnico e a França, que não poderia sonhar com algo mágico por falta de gênios como os tem a equipe brasileira, armou um triângulo de ouro formado por Zidane, Vieira e Makelele e uma defesa de ferro, como afirmou Le Monde. Henry, o artilheiro, também foi brilhante, mas, convenhamos, onde se encontrava o lateral esquerdo que deveria estar grudado ao lado da trave esquerda de Dida naquele momento?
Escrevo essa crônica logo após o jogo, enquanto os comentaristas esportivos brasileiros buscam explicações, sem nunca chegarem ao âmago da questão, não que não saibam, mas porque assim como o técnico da seleção, eles também tem as suas liberdades limitadas por uma imensidão de patrocinadores oficiais.
Mais um sonho que se esvai. E eu, como tantos outros brasileiros, mesmo curtindo a minha tristeza, poderia escrever aqui um rotundo “não falei?” Mas não me rejubilo por ter matado a charada em crônica anterior a essa, quando disse que os nossos dois laterais davam medo e que os nossos dois atacantes eram dois tanques de guerra. Nem mesmo lamento ter elogiado Parreira por ter mudado a sua tática de retranca e adotado o quadrado mágico, embora hoje, tenha sofrido uma recaída em relação a outras escalações, desfeito o quadrado e, como agravante, a sua extremada lentidão não lhe permitiu promover em tempo as mudanças óbvias.
Claro que o Parreira queria ganhar a Copa. Claro que os jogadores se esforçaram. Não acontece diferente na família, nas empresas, nos governos, sejam eles municipais, estaduais ou federais. Todos querem o melhor. Todos se esforçam. No entanto bons pais muitas vezes fracassam, como os técnicos e como também fracassam bem intencionados chefes de governo ou comandantes de exércitos. Não que queiram, evidentemente, mas porque não conseguem formar com as suas estrelas uma verdadeira constelação, não conseguem formar equipe. Seja por falta de humildade ou de visão, seja em virtude dos inumeráveis interesses que estão em jogo numa escalação, não conseguem dar alma aos seus titulares. Você pode ter os melhores do mundo em seu time, mas se eles não conseguirem formar uma equipe nada conseguirão. Que dirá se as suas estrelas forem cadentes, ou mesmo se forem estrelas de várias grandezas?
Aí tanto maior é a necessidade de se formar uma equipe, como Portugal de Felipão, que pode até perder, porque perder faz parte do jogo, mas sai de campo com a camisa suada, sai em pranto, se consolando mutuamente, ao contrário dos solitários jogadores brasileiros.
Mas, agora que Inês é morta, pouco adianta ficarmos crucificando esse ou aquele. O que mais lamento é que dificilmente teremos outra oportunidade tão fácil para conquistarmos o hexa. Primeiro pela moleza que pegamos, depois pela dificuldade de voltarmos a ter uma geração com tantas estrelas fulgurantes.
E eu, que seria capaz de chorar ao ver uma equipe ser derrotada, seja essa equipe uma seleção de futebol, um grupo de teatro, de canto coral ou uma equipe governamental, hoje resumo a minha tristeza apenas no fato de não termos conseguido formar uma equipe.