O que é antigamente? Eita coisa difícil de se dizer. O caro leitor deverá sentir isso ao longo dessa crônica, mas adianto, não serei tão capaz quanto Drummond de definir essa palavra. Então adianto logo que: “ANTIGAMENTE, as moças chamavam-se mademoiselles e eram todas mimosas e muito prendadas. Não faziam anos: completavam primaveras, em geral dezoito. Os janotas, mesmo não sendo rapagões, faziam-lhes pé-de-alferes, arrastando a asa, mas ficavam longos meses debaixo do balaio. E se levavam tábua, o remédio era tirar o cavalo da chuva e ir pregar em outra freguesia”(...) “MAS TUDO ISSO era antigamente, isto é, outrora”.
Fita cassete: O menino ainda tinha o quatrocentão no umbigo, mas já possuia o seu pen drive repleto de músicas, vídeos de minuto e outras bugigangas que lhe aguçavam a curiosidade, tornando-o prematuro, ao menos para os mais velhos. Mas, oh! Doce antiguidade, não conhecia uma fita cassete. Seria isso alguma coisa de antigamente?
Quatrocentão no umbigo. Não me diga o leitor que nunca ouviu essa expressão? Pois é! Eu, quando nasci fui enfaixado igual a uma múmia, mas não cheguei a usar o quatrocentão no umbigo. Será que isso era coisa de antigamente? Ou seja, será que era apenas antigamente que se usava, além de enfaixar as crianças, colocar uma moeda de quatrocentos réis no umbigo para que o dito cujo não ficasse ressaltado?
1974: Ou será que antigamente pode ser considerado o ano de 1974, quando vim para Dourados? Ah! Que bela crônica: o professor Mário Geraldini trouxe-me para dar aulas no CEUD, hoje UFGD e somente depois de algum tempo é que eu soube que a minha vinda deveu-se a desistência de um outro colega meu. Ele veio com seu carro, trazendo o filho e a esposa. Atrás dele o caminhão da mudança. A esposa no entanto não deixou a mudança ser descarregada, achou Dourados tão horrível que no outro dia retornaram. Azar o dele, sorte a minha. Mas será isso antigamente?
Má remuneração: Naquele tempo (ou será antigamente?) o reitor da UFMS dizia que contratava professores com aulas preparadas, então dávamos de 12 a 16 aulas semanais com um contrato de 20 horas. E a baixa remuneração obrigou-me a procurar outras escolas para complementar o salário. Será que a baixa remuneração dos professores era coisa de antigamente?
Colégio Oswaldo Cruz: Foi então que bati no Colégio Oswaldo Cruz e consegui algumas aulas e conheci o professor José Pereira Lins. Eu, um molecão de 27 anos, metido a saber alguma coisa de história, e ele já lá com os seus cinquenta e poucos anos. Será isso antigamente?
Primeira impressão. Como aquele Colégio era concorrido naquela época? Os alunos sentavam aos pares. Tomei uma decisão drástica àquela época. Disse em alto e bom som: vocês estão todos aprovados, portanto fiquem em sala apenas os que tiverem o desejo de aprender. Muitos ficaram e se tornaram mais tarde gerentes de bancos importantes, assessores e até mesmo um Juíz de Direito. Particularmente achava que o professor Lins fosse um mercador de diplomas.
Pegadinha: Belo dia aprontei uma peça aos meus alunos do Colégio Oswaldo Cruz. Tive o capricho de elaborar quatro provas diferentes, com cinco alternativas, sendo que todas as perguntas eram iniciadas com as mesmas palavras mas ao meio da frase se modificavam. Ora, portanto, cada pergunta tinha uma resposta diferente. E ainda de lambuja formulei uma questão objetiva: Qual a capital do Brasil?
O mestre escola: Distribui as provas e sai da classe. Todo mundo colou e o resultado foi um desastre. Notas todas abaixo de quatro. Virou um rebuliço. Como eu havia considerado certa a alternativa b da primeira questão para uns e errada para outros. Expliquei-me, as provas eram todas diferentes. Tudo bem. Aprenderam a lição, mas e como eu havia considerado errada a questão da capital do Brasil? Todos haviam respondido Brasília e eu havia considerado errado. Os alunos em polvorosa acorreram ao professor Lins. Foi então que conheci o mestre-escola. Lins explicou-lhes que de fato a capital do Brasil nunca foi Brasília e sim o Distrito Federal.
O milionário: José Pereira Lins bem poderia ter se tornado um professor milionário em termos financeiros, mas preferiu ser mestre escola, operário da linguagem, poeta contemplativo. A grande riqueza que acumulou foi a sua propria maneira de ser, e essa riqueza foi transmitida aos milhares de alunos do tradicional Oswaldo Cruz. Um pouco dele, quer dizer, de sua riqueza, está também em muitos de nós de Dourados que tivemos a oportunidade de conviver com ele.
A benção: Como na canção de Vinicius, a benção mestre Lins, você que dedicou a sua vida ao magistério e à Literatura, você que completou 90 anos e há ainda muitos para completar. Ah! Deve ter tido os seus defeitos, os seus erros, os seus desencontros. Mas, enfirm, “a vida é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros pela vida”.